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Mark Manahan - Publicado em 10.2002

Na eleição atual dois fatos me intrigaram além do usual: o constante aumento de Lula nas pesquisas ao invés da costumeira queda. E a aliança com o PL. Parece óbvio dizer que uma explica a outra. Entretanto tenho razões menos óbvias a acrescentar.


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É sabido que o processo de industrialização das regiões periféricas do país acelerou-se durante a década de 90. E é também notório que esse processo fez-se acompanhar de uma ligeira desindustrialização do sudeste. Pequena sim, mas constante e gradativa.

Para as grandes indústrias que pensam a longo prazo, é custoso mas lucrativo mudar suas instalações. Lembro a famosa briga quando uma indústria de automóveis queria instalar-se na Bahia e o sindicato dos metalúrgicos paulistas fez campanha para que tal não acontecesse.

Ora, aí está toda a tradução do pleito presidencial de 2002. Sem pretender considerar o fraco desempenho até agora, dos demais candidatos, que considero como meras divisões dos governistas e dos anti-petistas, pretendo continuar a análise do desempenho da aliança PT-PL.

E a evidência é forte de que trata-se de uma aliança entre sindicatos e indústrias de médio porte - que não consideram viável a mudança regional - para manter o Brasil do jeito como está, ou pior ainda faze-lo recuar 20 anos atrás. O que seria isso? Simples, seria a Hegemonia Paulista reforçada.

Os industriais compreenderam isso, e compreenderam que o PT era o melhor aliado, por ter suas bases maciças entre os operários paulistas, por mais que o PT procure se mostrar nacionalmente como o partido das classes pauperizadas liderado por segmentos liberais e de serviços. Ambos, PT e PL estão na verdade, fazendo um esforço para o industrialismo de São Paulo triunfar.

Em texto anterior considerei que o grande progresso do governo FHC fora desenvolver os estados pobres e os interiores desses estados principalmente. A política de FHC tão denunciada na grande mídia dos grandes centros industriais, foi dedicada a reduzir os desequilíbrios do país, e um dos reflexos foi o aumento do superávit em 19 estados da federação, no ano passado, por exemplo. Tendência constante dos últimos anos e clara demonstração do que digo.

Conclui-se que não sem razão, a candidatura Lula se manteve no topo, pois desta vez, além da tradição militância que primeiro impulsionava o crescimento e depois espantava o eleitor pelo seu radicalismo e excesso de teorização, agora conta com a aliança de grupos insdustriais poderosos, ainda que não os mais poderosos.

Será que as pessoas de outros estados fora do Sudeste, que votam em Lula não perceberam os ventos da mudança? Bem, como exemplo do que os eleitores desses estados pretendem fazer cito o erro de cálculo da nobreza francesa em 1788, quando desafiou o rei, julgando-se fortalecida e não fazendo idéia do que era provocar a burguesia e o Terceiro-Estado num momento como aquele: é o tiro no próprio pé. No Brasil é assim. Muda-se algo para que nada mude. Quando alguma mudança aparentemente "radical" acontece, é porque os tais radicais já estão incluídos no sistema.

Após o final da eleição é favor pedir a todos que prestem atenção nas taxas de crescimento dos estados da federação, e se elas se mantém no ritmo dos últimos anos, tendente ao equilíbrio, ou se irá descambar para a concentração de riquezas, indústria e empregos que era 20 anos atrás. São Paulo, como na "revolução" federalista de 1932, recusa-se a aceitar sua derrota, e reage da melhor forma na política: apresentando o seu problema como se fosse o de todos.