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Mark Manahan - Publicado em 15.05.2003


Imagem. É disso que se trata aqui. Não vou discutir num espaço limitado, sobre as reais condições existentes para os estrangeiros nos EUA. Até porque a maioria ficaria incrédula em saber que elas são muito melhores do que costuma ser divulgado. Não, o debate aqui será sobre como começou a Moda, ou Ideologia se assim o quiserem, do antiamericanismo.

Antes de ir as origens, seria bom definir: antiamericanismo, que bicho é esse? Trata-se de uma verdadeira doutrina, com muito de empírica, demasiado emocional, e sem nenhuma base científica, a qual defende que:

i) os EUA são uma nação voltada para o domínio do mundo, ou pelo menos.
ii) uma nação que depende da miséria do mundo para construir-se a si mesma. Como toda doutrina também propõe um meio de ação - é quando a filosofia torna-se ideologia - então o Antiamericanismo propõe:
iii) As famosas lutas de "resistência", onde todo e qualquer ato dirigido contra os EUA, é visto como heróico. Exemplo: Leonardo Boff sobre o 11 de setembro " Dois aviões não bastam, tinha que ser uns 25" e também propõe:
iv) uma rejeição não somente do que é estadunidense como também das pessoas que são cidadãos daquele país, numa das operações de transporte mais flagrantemente obtusas da intelectualidade.

Os norte-americanos são vistos como um povo, ou uma raça, em geral o americano médio é representado por uma figura alta, loira, de olhos azuis, extremamente arrogante e autoritária. Nada mais distante da realidade. Primeiro, a concepção dos EUA enquanto país extrapola a condição usual de "nacional" tradicional, pois não tem predominância significativa de qualquer substrato étnico ou mesmo nacional.

Segundo o equivalente do Censo americano em 1990, os maiores grupos nacionais da população - que é extremamente diversificada, observar os sobrenomes e as feições de todos os norte-americanos que são citados pelo mundo afora - eram os alemães (27%), os ingleses (22%), os italianos (19%) e os irlandeses (11%). Nem é preciso dizer que hoje tais proporções se diluem cada vez mais no cadinho étnico da pátria efetiva do Multiculturalismo. Os Hispânicos eram cerca de 12% e estatísticas mais recentes já dão conta que sejam 18%, superando os indivíduos descendentes de africanos (11%) . Embora tanto hispânicos como africanos não apresentem divisões nacionais ou étnicas. Exemplo: dos 11% de africanos, não dá pra especificar quantos descendem de Ibos, Yorubás, Xhosas, Zulus, etc. Assim como os hispânicos, já por si miscigenados não estão aí como um grupo heterogêneo, pois vêm de vários países e mesmo de três continentes. Para finalizar, o problema "nacional" devo dizer que a palavra não estava presente na Constituição original, que definiu o novo país, muito mais mesmo como uma reunião de estados, não sendo o nome do mesmo mera coincidência.

Só em 1821, 46 anos após a declaração de independência, é que John Marshall, o supremo federalista, tornou a idéia de "nação americana" algo público, quase oficial, em seus escritos. O próprio George Washington referia-se a "Comunidade de Interesses em uma Nação" pondo em dúvida se a tal nação existia ou não... O historiador constitucional J. M. Murrin declara expressamente "(...) os norte-americanos erigiram suas bases constitucionais muito antes de terem sido estabelecidos os contornos de uma nação. " (in R. Beeman et alli: Beyond Confederation: Origins of the Constitution and of American National Identity).

Embora tenha saído do assunto principal, espero ter demonstrado que algumas das premissas do antiamericanismo, aquelas pertinentes a considerar os norte-americanos um grupo nacional, pecam por não entender a realidade histórica daquele país. É que os críticos dos EUA provêm de vários grupos, alguns de orientação político-ideológica (comunistas com 10 anos de Queda do Muro, Leste Europeu e Fim da URSS atravessados na garganta, nazistas com a derrota da II Guerra Mundial ainda entalada) mas outros de orientação étnico-religiosa como os Fundamentalistas Árabes que enxergam nos outros o próprio preconceito e tentam assim difundir a mentira de que os yankees sejam um grupo nacional ou mesmo étnico, ou pelo menos suas críticas são feitas sob esse formato enganador.

Claro que nem todas as críticas são assim mal-intencionadas, umas são canhestras de desinformação mesmo. Nem todos - eu diria que quase nenhum - dos que criticam os EUA já se dedicou a ler pelo menos um livro apenas sobre a história daquele país. Grande parte deles fala do que não conhece, jamais esteve lá ou sequer conversou com os nativos do lugar ou com os que moram lá. Incorrendo aliás no mesmo argumento usado para criticar os norte-americanos, o de desconhecer os povos com os quais lidam, sobre os quais falam, etc. Quando lêem um pouco sobre os EUA utilizam em geral livros do "contra" ou tendenciosos mesmo como os de Eduardo Galeano e outros. Sem falar do fato que o antiamericano é incapaz de utilizar a própria massa (falida) cerebral para julgar as informações de que dispõe. Ou porque está tão lobotomizado pela lavagem cerebral feita há gerações por nossos "heróicos" professores perseguidos pela ditadura militar - um dia volto a isso. Ou porque é mal-intencionado mesmo, quando oculta fatos sobre os EUA como os que seguem: que é o país que mais concedeu auxílio financeiro a outros países e instituições em toda a História, que não somente auxílio financeiro concedeu também mais ajuda humanitária que qualquer outro, tanto seu governo quanto instituições de dentro do país, que é o país que mais deu abrigo a perseguidos políticos, que é o país onde os direitos das minorias ganham de longe daqueles observados na maioria dos outros países. Que é um país com extensa legislação democrática onde os cargos eletivos passam de 500 mil postos.

Enfim, o antiamericanista sacrifica toda lógica, toda evidência, a doutrinas ideológicas ou religiosas que apontam os EUA como "o grande satã" . Parafraseando Raymond Aron, ideologia e religião não estão muito distantes quando se trata de achar um inimigo ou "extremizar" posturas políticas. O que Aron disse mesmo? Ah sim, "Se a Religião é o Ópio do Povo, a Ideologia é o Ópio dos Intelectuais" . Era um ataquezinho a Marx. Hoje pode, pois afinal os marxistas jogaram Marx no lixo e estão em Gramsci... não sei o que é pior...embora, claro, a maioria nunca tenha lido nem Marx nem Gramsci, apenas siga as ordens da panelinha que leu.

Mas falando tanto de antiamericanismo quase nos esquecemos das origens, não é mesmo? Quais são elas, como identificá-las? Eu sempre me perguntei isso desde que percebi a similitude das manifestações dos anos 60 anti-Vietnã, com outras que aparecem com freqüência, cada vez que algum interesse se sente prejudicado pelos interesses norte-americanos, ou quando das passeatas de outras guerras, como as da primeira Guerra do Golfo em 90-91 ou Kosovo-99, ou mesmo as atuais, tão chatas e descabeçadas.

Pois bem, Procurem em Paul Johnson, que ele reportará o tema a uma época aparentemente cheia de coincidências. O final da década de 1910 e o início da década seguinte. Dois eventos marcantes dão o tom dessa época: A Revolução Russa, da qual muitos estão cientes, e o fechamento da fronteira americana com a drástica redução da imigração, que muitos ignoram, deu-se quase pela mesma época. Mas, como em todos os grandes eventos, existem as causas remotas, e existe também o estopim imediato. E com o antiamericanismo tão freqüente em nosso tempo que chega a ser enfadonho, não foi diferente. Se recuarmos no tempo não há manifestação organizada contra os EUA que tenha durado mais e se espalhado por mais países anterior a luta pela libertação dos anarquistas italianos Sacco e Vanzetti.

Acusados de assassinato durante um assalto em Massachussets/EUA, no ano de 1921, foram capturados e condenados à morte. Iniciou-se um movimento mundial pela sua libertação, impulsionado lógico, pelos movimentos e associações anarquistas.

Nesse ponto é preciso lembrar que o anarquismo vivia uma época em que era especialmente afeito ao uso da violência para propagar seus ideais. Hoje, andam muito ligados à causa da paz, mas é possível perceber deslizes em que retornam ao tempo da pregação da violência, como no recente pedido para matar Olavo de Carvalho no Brasil, e fomentando o quebra-quebra da Livraria Cultura, suposta patrocinadora do site do filósofo. Se tais fatos recentes (ocorreram na semana de 31.03 e 06.04 de 2003 ) demonstram que as táticas do anarquismo para acabar com o poder, o utilizam em sua forma mais rudimentar - a força física, dos números e a violência de grupos armados - muito pior era a sua atuação no período em tela, final do século XIX, início do XX.

Mataram pelo que me lembro, três grandes líderes mundiais em um período de menos de 25 anos. Parecia ser a orientação do momento: atacar e atentar contra a vida dos representantes do "capitalismo internacional". Explodiram o Czar Alexandre II - que abolira a Servidão na Rússia - em 1880, mataram a Imperatriz Sissi, aquela do filme "A Noviça Rebelde" a facadas e para o presidente McKinley dos EUA foram tiros de revólver em 1904. À parte um sem-número de outros atentados contra "representantes da autoridade" em escala mundial, deflagrando verdadeira onda terrorista no mundo inteiro, pois essas autoridades também se deslocavam das suas metrópoles em direção às colônias, onde também poderiam ser alvo dos fanáticos daquele momento. E coitado de quem estivesse perto, como em episódio mais recente os mais de 200 mortos e 4000 feridos africanos atingidos pelos atentados da Al-Qaeda em 1998 contra as embaixadas americanas em Dar-es-Salaam, Tanzânia e Nairobi, Quênia.

Assim, quando Sacco e Vanzetti foram presos após terem sido acusados de participação no assalto a um banco de uma companhia de mineração no dia do pagamento dos empregados - que bela maneira de defender os explorados - que resultara na morte de três pessoas após intenso tiroteio. Parte dos argumentos da defesa baseava-se na arma utilizada no crime, que demorou a ser encontrada e que não foi fácil provar que tinha ligações com os dois anarquistas. Mas o principal argumento foi outro. Numa época em que os anarquistas eram vistos como verdadeiros "agentes do caos" ou Anjinhos Políticos da Morte, o fato dos dois suspeitos serem filiados a movimentos anarquistas de início serviu como confirmação da suspeita, mas como sempre o cinismo dos movimentos organizados consegue fazer, acabou por reverter em "perseguição política" e "preconceito público" contra pobres militantes inocentes.

Mesmo após terem sido julgados e condenados, o movimento pela sua libertação crescia, não somente entre os operários dos EUA, mas em seis outros países, principalmente na França. E quando a condenação veio, os movimentos operários, em plena ebulição com as lutas na Alemanha, Hungria e a recente vitória na União Soviética, no espasmo político convulsivo do entre-guerras, estes movimentos repito, passaram a hostilizar os Estados Unidos inteiro como cabeça da "conspiração capitalista mundial". Fazendo as ilações de sempre...que num país rico, desenvolvido, vencedor da guerra, onde as coisas funcionavam, logicamente não poderia haver justiça para o pobre trabalhador.

Tais assertivas provocam tanto riso hoje quanto provocaram na época, mas a moda pegou. Cada vez mais os movimentos organizados de operários centravam fogo na figura dos EUA como responsável pelas crises e catástrofes mundiais. De lá para cá, em se tratando de inconsequência e vícios analíticos não mudou muita coisa. Quanto a Sacco e Vanzetti, todas as tentativas de absolvê-los mostraram-se inúteis. As provas reunidas foram incontestáveis. Até mesmo o novelista Upton Sinclair, que escrevera uma novela sobre o caso, chamada Boston, revelou em uma entrevista, que na investigação que fizera em particular para preparar o texto de sua novela, chegara a conclusão que os dois italianos eram mesmo culpados.

Concluo de todo o acima exposto o seguinte: se num país livre, as pessoas podem ter as convicções políticas e religiosas que quiserem, deve haver um limite claro para as ações que tais convicções motivam. Assaltos e seqüestros "em nome de uma causa" não deixam de ser assaltos e seqüestros, ou ficaria fácil para qualquer um realizar seus crimes, e na hora em que perder, sair em fuga para outro país alegando ser vítima de perseguição política. Com freqüência julga-se muito a forma e não o conteúdo. Pensa-se nas ações, mas esquece-se dos exemplos que elas deixam. Uma nação que condena seus criminosos efetivamente desestimula a multiplicação excessiva dos mesmos. A violência anarquista entra em declínio e o movimento como um todo também, após o caso Sacco e Vanzetti. Eles estão voltando a usar os mesmos métodos, talvez seja a hora de aplicar corretivos novamente.

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