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Vietnã: a hora da revisão
Mark Manahan - Publicado em 21.06.2003
1 – Meu olhar sobre o revisionismo
Em algum dia perdido da década de 1980 tomei contato com a expressão “revisionismo”, pela primeira vez. Numa manchete acerca do julgamento do bando dos quatro na China, que incluía a poderosa última esposa de Mao e agora também viúva, a palavra estava entre os impropérios gritados pela furibunda senhora à comissão que a julgava. Perdera o jogo político dentro do PC chinês e agora ia comer arroz frio com carne de rato na prisão à espera do garrote.
Claro que no jornal da noite a mesma notícia estava lá, mas foi muito mais impressionante ver a viúva de Mao aos berros de “revisionistas!”. E assim a expressão entrou no meu reduzido vocabulário. Ao longo dos anos pude perceber que era um insulto – muito feio de ser dito – normalmente aplicado por militantes de movimentos sociais de massa a todos aqueles que tentavam questionar pontos que para a militância parecem “inquestionáveis”.
O problema é esse: as pessoas têm um limite do que desejam questionar. Daquilo que acreditam, que sentem como sendo o “certo” e que não pensam sequer na possibilidade de que possa ser diferente. A investigação metodologicamente correta transforma-se em Credo a partir do momento em que entravamos um aprofundamento e até um renegar de coisas que dávamos por garantidas. Para a programática de Partidos, Entidades e outros grupos com uma visão monista das coisas é um erro fundamental. É uma autêntica interdição, proibição mesmo, não declarada de investigar certas “verdades caras”. Os estudos das listas de cidadãos na Itália Antiga, colocam em questão a falácia da “maioria de escravos”, que tanta gente acredita gratuitamente, por não ter questionado jamais as opiniões abalizadas de profissionais da desinformação. Paul Veyne, em seu ensaio na História da Vida Privada coloca o ponto de que a maioria dos habitantes da Itália não possuía escravos, eram de camponeses e trabalhadores pobres mas autônomos. Isso não chega a ameaçar a questão de que o sistema era escravista porque baseado no trabalho de escravos, mas arranha a imagem da pirâmide social onde a condição mais baixa era a do número maior de habitantes.
2 – O Vietnã
Falando em verdades caras, algumas delas falam sobre o Vietnã. No conflito ali ocorrido surgiram as primeiras associações estúpidas entre os EUA e o nazi-fascismo, o início deste rancor já rançoso, desse terceiro-mundismo sem resultados outros além de lançar as pessoas no niilismo de interesses de que falava Netchaiev quando criticava nos bolcheviques a propaganda que estes faziam, baseada na questão dos interesses do indivíduo.
Alguns esclarecimentos, antes de abordar a questão; no período central do conflito, 1965-1973, onde houve a participação norte-americana, os EUA tentavam ajudar seu aliado, vulgarmente chamado Vietnã do Sul, a conter o avanço da República Popular do Vietnã, chamada também de Vietnã do Norte, de orientação comunista, e ajudada por China e URSS. Após os EUA se retirarem do conflito em 1973, bastaram dois anos para que o Norte, Comunista – que continuou a receber ajuda militar e financeira de China e URSS – vencesse o Sul, unificando o país sob o regime socialista, em 1975. Os Vietcongs eram os guerrilheiros que atuavam no Vietnã do Sul, de orientação comunista e operando em conjunto com o Vietnã do Norte. O ENV, Exército Norte-Vietnamita, era a força regular do Vietnã do Norte, embora também atuasse em operações irregulares – de guerrilha.
Pra começar, que tal questionarmos a derrota americana? Em que ponto ela foi derrota e em quais não foi?
A Guerra do Vietnã é em vários sentidos a grande derrota dos EUA. Em outros, e é isso que pretendo propor, ela é uma vitória tão marcante quanto a derrota que lhe deu fama.
Não se trata de uma fraseologia à la Tribalistas, de falar absurdos apenas para afirmar opostos, é algo mais do tipo: às vezes quando você ganha, na verdade você perde, e vice-versa.
Se eu perguntar a qualquer cidadão não-hiperideologizado (um não-serviçal de partido ou um não-sonhador pragmático) em que país ele preferiria viver: EUA ou Vietnã, a resposta é óbvia. Mas isso não responde à minha proposição, pois o desejo de viver em um desses lugares transcende a questão da guerra. Reformulemos a pergunta: onde o senhor preferiria viver: num lugar em que após 58 mil mortes o clamor popular contribui para o encerramento de uma guerra ou sob lideranças que estão dispostas a sacrificar dois milhões de vidas e talvez até mais por uma vitória que deixará o próprio país em ruínas?
Essa é a questão da democracia que separa EUA e Vietnã. Numa ditadura popular, com ou sem aspas, é muito mais fácil pedir o sangue dos cidadãos. Para alguns porque a guerra estava na raiz do desejo de independência dos vietnamitas, um processo que a longo prazo se mostrou vão. Quem duvidar, pense na economia vietnamita, nas condições de vida. Se você desafia um gigante, leve garfo e faca, é uma prova de confiança. Mas os milhões de mortos, as crianças, aqueles que foram vítimas do embate, pesam na consciência dos dois lados, tendo sido vitimados por ações e decisões que não foram deles, das vítimas. Em 1994, o rebate: os vietnamitas cederam, acompanhando a onda do neoliberalismo triunfante e chamaram os EUA a investir no país. Até Tio Bill esteve lá para o show. Ele contava com a vantagem de ter queimado seu cartão de recrutamento, nunca ter estado lá em combate, etc. Observo o seguinte: as manifestações dos anos 1960 e 70 serviram para os EUA encerrarem a guerra mais rapidamente, mesmo sem atingirem seus objetivos, embora retardassem bastante os do inimigo por dez anos. Por isso é tanto mais relevante o fato de que a guerra do Vietnã se tornou impopular não apenas porque os norte-americanos não entendiam nem queriam tal guerra, mas porque achavam que estava sendo mal-conduzida e o sacrifício se tornava inútil. E me pergunto então: que chance teria o vietnamita de se recusar a lutar? Não é de se supor que em algum momento um grande número deles tenha desanimado diante de tantas perdas. Até mesmo suas lideranças em algum ponto hesitaram. Vários dos ataques ordenados pelo “gênio” Giap, o supremo comandante militar do Vietnã do Norte, foram tão mal-sucedidos, com perda da ordem de até 20% do total dos efetivos, que parecem ter sido fruto de alguma pressão interna para obter resultados, tal sua precipitação e planejamento frouxo que resultaram em desastre. Foi assim no Tet em 1968, foi assim em 1972.
Mas para os vietnamitas era fácil. Perder 100 homens e matar três americanos era negócio. Não tinham imprensa crítica, muito menos livre. Não tinham eleições, suas lideranças não estavam sujeitas a uma avaliação popular. Já disse o grande John Keegan: o general, soldado da democracia, não tem o direito de dispor de muitas baixas em suas fileiras. No pensamento Ocidental, longe vai o tempo de Clausewitz “O sangue é o preço da vitória” e do general Foch, francês da I GM “um general pode ser considerado experiente após sofrer 15 mil baixas”. Para as lideranças vietnamitas, com extremo controle de sua nação, auxílio estrangeiro em profusão (URSS e China) e liberdade para executar qualquer oposição tudo era festa. Até mesmo quando suas violências chegavam aos ouvidos do inimigo este contava com atrizes insípidas para desmentir tudo em campanhas “cívicas” e fazer ouvidos moucos aos relatos de tortura dos vietnamitas sobre seus prisioneiros e massacres de aldeias opositoras. Para os norte-americanos, seus próprios excessos chegavam na hora do jantar. Massacre de My Lai. Prisioneiro executado por general sul-vietnamita (aliado dos EUA) na frente da câmara de TV. E pronto. Demoniza-se uma nação. Vitimiza-se outra.
Vietnamização era o intento. Vitimização foi o ocorrido. Quando os norte-vietnamitas bombardearam Anh Loc, muitos civis tentaram fugir pela estrada. Alguém pensa que o bombardeio diminuiu? 20 mil mortos civis, porque Giap decidira que queria a cidade cercada. My Lai é repetido à larga em qualquer historinha média de professor acerca do Vietnam. Perguntem quantas vezes já se contou a história de Anh Loc? Se formos pensar em reportagens a situação torna-se ridícula. Preciso falar de Huê, a cidade imperial? Tomada pelos norte-vietnamitas e guerrilheiros vietcongs na ofensiva do Tet em 1968. Como sempre símbolos... Como são comoventes esses guerrilheiros! Enfim, a cidade passou dez dias nas mãos dos comunistas. Ao entrarem lá de volta, os sul-vietnamitas e americanos encontraram grandes valas comuns dos acertos de contas: tinham eliminado os anciões e outras figuras políticas de destaque em julgamentos sumários, acusados de “colaborar com o invasor”. Com pressa de amante, por serviço tão completo em dez dias. As cenas que vemos na queda de Saigon em 1975, de desespero e fuga rumo à embaixada dos EUA no fim da guerra, são de uma população aterrorizada pelo poderio das lideranças absolutas quando entravam em algum lugar. Mas o imperialismo e o poder absoluto estão sempre onde está o dinheiro, ao menos para quem se esquece de episódios como esses.
No aspecto puramente militar fico com Oliver North, do escândalo Irã-Contras. Ele não se conformava com o Vietnã, pois para ele os EUA “ganharam todas as batalhas, mas perderam a guerra”. Ele não aceitava. E o fato em números era isso. O problema é que para a política importa menos quantos você mata a mais do que o inimigo. Importa mais quantos você pode perder a mais que o inimigo. Ou a menos. Os EUA estiveram muito perto de exercer o controle total do Vietnã, apesar dos dramas de Hoolywood. O número de aldeias controladas aumentou em mais de mil ainda em 1969, e como já citei antes, os grandes ataques dos vietnamitas falharam. O vício de raciocínio acerca da Guerra do Vietnã é tão grande que alguns absurdos fizeram escola como: a selva derrotou os EUA, porque americano não sabe combater nesse terreno, em que o oriental é especialista. Bem, discordo pelo oriental que não pode ser reduzido a condição de bicho-do-mato, e discordo pelos EUA quando penso na derrota que impôs ao Japão. Combateram de ilha em ilha e foram tomando todas, seja por fora em batalhas navais, seja adentrando o terreno que era uma selva comparável a do Vietnã. Os norte-americanos tiveram dificuldades mas os marines acabaram sempre superando o inimigo.
Outro argumento: o Japão travava guerra convencional. Os EUA não sabem combater uma guerrilha. Ressalto: todas as grandes operações de guerrilha dos vietnamitas, fossem os vietcongues, ou os regulares do ENV em operações de guerrilha, foram desbaratadas. Os japoneses combatiam do mesmo modo na II Guerra. Ataques de surpresa, ataques noturnos e muita pressão psicológica. Além do velho fanatismo suicida não-ocidental. Mas a II Guerra contava com amplo apoio popular dentro dos “States”. Talvez Nixon estivesse certo ao dizer que o Vietnã não podia derrotar os EUA, somente os próprios norte-americanos é que poderiam fazê-lo.
Vez por outra aparecem na imprensa e nas salas de aula acusações do tipo: os EUA usaram “armas químicas” no Vietnã. Referem-se principalmente ao Tordon-155, desfolhante usado para retirar a cobertura da floresta e expor os guerrilheiros. Comprovou-se carcinogênico posteriormente. Uso proposital? Talvez, mas o mesmo composto era usado nos EUA também. No ano de sua proibição de uso no Vietnã, foi proibido também seu uso dentro do território americano.
Finalizo com a declaração dos norte-vietnamitas ao vencerem a guerra em 1975. Pretendiam transformar o Sudeste Asiático em “uma zona de paz, prosperidade e neutralidade”. Deu certo? Pol Pot – queridinho de Noam Chomsky - entendeu isso ao seu modo, a China invadiu o Vietnã em 1978 e o “Boat People” passou anos fugindo das perseguições dos regimes vitoriosos. E junte-se a isso a tradicional estagnação econômica dos regimes socialistas, e a velha caterva de privilegiados da cúpula do regime. Que saudade que deu dos EUA! Por isso mesmo foram chamados em 1994.
A derrota americana encerrou o serviço militar obrigatório nas forças armadas dos EUA. Não há mais o “draft”. Só em casos de emergência nacional e nunca mais o mesmo foi usado. A carreira militar é um atrativo de ascensão rápida num lugar onde todos procuram a ascensão rápida. Ponto para os EUA e seus direitos civis. A década de 1970 iniciou-se com um aspecto de profunda crise para os EUA porém. Somado ao trauma do Vietnã vieram o Watergate – para o presidente que conseguiu retirar os EUA da guerra, Richard Nixon – e a Crise do Petróleo. Toda uma geração que cresceu naquela época acreditou sinceramente na queda iminente dos EUA e na vitória do Comunismo – ou pelo menos da URSS – no plano mundial.
Os filmes do diretor Oliver Stone, “Platoon”, “JFK” e “Nixon”, abordam aspectos interessantes do problema. Embora para Oliver Stone – seguindo nisso uma vertente de Hoolywood – os ricos sejam sempre maus e os republicanos sejam sempre imbecis sanguinários, os “Stupid White Man” do estúpido Michael Moore. Essa visão simplista rende muito dinheiro, por fazer muitas cabeças. Lá e aqui, em muitos lugares.
O que algumas pessoas esquecem ao refletir sobre questões tão complexas, é que há ricos e ricos. E ricos. E há nações e nações. E mais nações. Tipologizam tudo, esquematizam tudo, porque assim poupam-se o trabalho de estudar as questões mais a fundo. Ver as peculiaridades de cada coisa, ao invés de encaixotar tudo em modelinhos prontos é mais útil quando não se quer apenas estudar a realidade mas vivê-la. Os teóricos ocupam-se em transformá-la, tarefa extremamente difícil para quem nem sequer aceita olhá-la em detalhes.
Observação Final: eu adoro os filmes de Oliver Stone, embora deteste a maioria das conclusões a que ele chega. Já foi chamado de mitificador da década de 1960. O que alguns filósofos tentaram fazer com a realidade ele tenta fazer com esse período. O conjunto de sua obra poderia se chamar: “O Mundo Segundo São Oliver Stone Durante os Sixties”. Todo cuidado é pouco.
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