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Xenïa Antunes - Publicado em 30.07.2003


Posso perder vocês, mas não posso perder a compostura. Estas não são as palavras que eu queria escrever (é, naquele momento, eu estava escrevendo "Meu querido Presidente...).

Mas que momento foi esse, tão fugaz, depois de ter sido uma história de mais de vinte anos de tão solenes pactos e companheirismos, de crenças e sonhos comuns, partilhados aqui no chão sob a vigia da estrela mais bonita do sangue brasileiro? Foi tão fugaz que muitos de nós, náufragos resistentes, nos apegamos à maquininha do tempo atrasando o relógio para dar um tempo ao Lula-Aqui. Que ele se acostumasse com a papelada, com o protocolo, e com as acomodações, os rapapés, os flashes, as manchetes, as festas e os gritos da torcida. Tivesse tempo para receber tantos abraços e beijos dos companheiros e tirar tantas fotografias e até para jogar uma pelada, que ninguém esperava mesmo gol de campeonato. E mais tempo ainda para colocar ordem na casa - todos entendiam que o momento era de transição.

A generosidade do povo que elegeu Lula Aqui era como a fé em deus é brasileiro, quem duvidaria?

Eu duvidei, exatamente dentro daquele momento fugaz, eu duvidei. Mas não quis estragar a festa dos companheiros. E fui na posse do Lula Aqui, fiz questão de registrar aquele momento, a felicidade e a esperança que haviam vencido o medo. Eu vi e contei todas as estrelas no brilho dos olhos das pessoas, pessoas de todos os cantos do país, de todas as raças, credos, cores e idades. Mas de repente percebi que a estrela tinha fugido do meu próprio olhar (não, meus caros, eu não sou pitonisa).

O que vem acontecendo com o governo Lula ou governo do PT, como queiram, não me causa o prazer do tripudio do "viu como eu tinha eu razão?". Logo eu, grande otimista, utópica e fraterna - não mesmo! Mas dizer o quê a vocês, senão do nojo?

E causa-me, sim, profundo nojo esse governo, pois de decepção já exauri todos os temas e não vou gastar literatura. Mas consciência tenho sobrando e ela me diz para dizer a vocês que eu não votei em Luís Ignácio Lula da Silva para vê-lo jogar peladas como se Chico Buarque fosse, se empanturrar de carnes de churrascos sob a luz dos refletores, em máxima afronta aos famintos e zerados, promover sua cadelinha a emergente social, escolher um ministério medíocre, aumentar o ministério medíocre, fazer turnê com o tal ministério medíocre para visitar a Fome algures e selar acordos indecentes com os infames de sempre para perpetuar a infâmia de sempre contra o povo brasileiro de sempre.

Eu não votei em Luís Ignácio Lula da Silva e na história do Partido dos Trabalhadores para ver domesticada com vil cabresto a indignação que nos fez, seus eleitores, a pensar e agir por um Brasil diferente - o da honestidade, o da justiça e da compaixão.

Eu não votei na fome, mas na saciedade dos apetites mais humildes.

Não votei a favor dos economistas prestidigitadores.

Não votei a favor da absolvição dos políticos peçonhentos.

Não votei a favor de confabulações entre ricos e poderosos.

Não votei a favor dos especuladores do lucro.

Não votei a favor dos donos do monopólio.

Não votei a favor da iniqüidade para com os trabalhadores e funcionários públicos.

Não votei a favor da miserabilidade dos inativos.

Não votei a favor da ALCA.

Não votei a favor de Davos.

Não votei no FMI.

Não votei em Luís Ignácio Lula da Silva para sua glória de operário-padrão-presidente.

E tampouco votei na ascensão de José Dirceu à eminência parda.

Meu voto não se destinou a continuar a fartar a manada com as negociatas que emporcalham a história deste país.

De posse do meu voto e de milhões de outros, o governo eleito trocou-os pela pior mercadoria em circulação: a politiquice. A mesma desprezível e conhecida politiquice de sempre, muito mal disfarçada em ideais de salvadores da pátria - estes, que ora no poder se apresentam desprovidos da verdade e da lealdade para com os companheiros, expurgando aqueles que não querem fazer parte das hostes servilistas, aqueles que desafinam o coro dos contentes, aqueles que ainda tem a coragem de permanecer coerentes ou de abrigar dúvidas e questionamentos.

Autoritarismo combatido, autoritarismo corrigido: afinal, não é o PT?

Mas não somos nós os eleitores? Não fomos nós que elegemos o senhor Luís Ignácio Lula da Silva e seu estilista e seu conselheiro-mor e seu ministério medíocre e toda a cúpula (ou cópula, como diz NM) e seu teatro de fantoches? E depois de empossado o senhor presidente não ficamos nós despossuídos da grandeza daquela estrela que nos guiou durante tantos anos? Não somos nós que temos assistido, estupefatos, durante este tão pouco tempo, cenas de subserviência explícita do governo do PT aos interesses dos patrões nacionais e internacionais? Não somos nós que temos ouvido outros discursos e outras promessas que não aqueles que nos fizeram entregar a tutela e o destino da nação a quem julgávamos o legítimo e justo representante dos anseios e vontades do povo que a habita? Não somos nós, então, os lesados, os enganados, nós, os crédulos palhaços da classe média,e eles, os excluídos sociais, os sem-terra, os sem-teto, os sem-comida? Nós,os que vemos o presidente da República, operário a serviço do Brasil, de mãos postas perante um dos maiores crápulas da face da terra, aquele Mr. Bush?

Um grande engodo, não? E nós é que somos os dissidentes? Pois que o sejamos, porque isso é uma questão de caráter. Que me desmintam a tempo, para o bem de todos, inclusive o meu, pois o preço a pagar por essa mentira será muito alto.

Portanto, este é meu nojo, nojo da máquina que engoliu meu voto.

Eu votei no Duda Mendonça e não sabia.

Este artigo faz parte da parceira entre o Duplipensar.net e o site A Confraria.



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