A natureza ainda não se recolheu e o vento insiste em regressar em pleno verão. As janelas tremem, o outono já deveria ter chegado? Não, ainda é cedo. É preciso aproveitar a presença (mesmo imaginária) do sol para escrever sobre a luminoso e tão simples conto-poesia de Kátia Drummond.

Leio, releio, e sinto uma espécie de sossego que já não se usa mais. Uma doçura inefável! Ah! Este ardoroso texto, esta paixão feita de fatos que podem ser considerados até banais, mas onde se dá a experimentação da alegria e da tristeza - a hora exata do jogo das alegorias.

Ao abrir seu arquivo - Paris - a autora retira dele prazeres e sofrimentos, e assim faz todas as coisas passarem pelo coração. Codificando de imediato seu universo, faz da palavra um aprendizado feérico, sem desperdício. É, pois, do reencontro com o mundo, mas sob o influxo da imaginação criadora, da lucidez e do delírio, da razão e da desrazão, que nasce a criação de Kátia Drummond.

Sábia, Kátia entende muito bem o poder do discurso vivo. Sábia, Kátia percebe o fascínio da palavra. Porque a palavra é seu principal instrumento. Essa palavra que é, em verdade, um mediador entre a mulher (que conta/canta/encanta) e sua experiência.

Kátia Drummond, mulher do seu tempo, e dos que virão, é um estado de inspiração permanente, sempre vigilante e atenta aos pormenores. Tudo o que imaginou, sentiu, sonhou, ganha força através de uma consciência "ingênua" que não é guiada pelo intelecto: "Não vem do intelecto/ Vem da alma/ Não vem dos livros/ Vem do coração." E os fantásticos relatos de onírica realidade abrigam a experimentação do real pelo conto em forma de poesia, que pode soar estranha, porque a experimentação representada tornará sempre perceptível uma dupla realidade: subjetiva e objetiva.

Aprender a viver é que é viver mesmo, dizia J.G.Rosa. A autora captou muito bem esta lição do mestre e traz à tona o mundo lúdico de vivências ricamente acumuladas no plano do sentimento, capaz até de provocar suspiros de saudades do tempo vivido, capaz de manter intocável o momento atual e capaz de fazer revelações de um tempo que virá: "Eu poetizo e conto a vida sem limites."

Narcisicamente, Katia sai de seu casulo, olha-se ao espelho, desnuda-se, reflete-se e encontra-se em Paris, identificando-se com a cidade dos seu sonhos, metamorfoseando, graças a sua sensibilidade aguçada para a captação do sentimento, essa emoção cristalizada, que é a fonte geratriz do seu texto.

Lúcida e lúdica, Kátia Drummond cria um espaço, e não por acaso, de encontro e similaridade entre essas qualidades nem sempre tão próximas. Coladas, aliadas, a consciência e o jogo marcam presença em seu fazer poético, onde o social e o individual reclamam sempre para si o sentimento do mundo. E aqui, Paris, é seu principal e apaixonado representante.

Edilene Mattos,
acadêmica, escritora, pesquisadora, doutora e especialista em Literatura Brasileira.

  Kátia Drummond - Publicado em 19.08.2003


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Dedicado aos meninos e meninas que perambulam pelas ruas da cidade.
Um livro de amor à vida, à natureza e às pessoas.


EXÉRCITO DE ANJOS

Pequenos, barrigudinhos
Olhares tristes, mansinhos
Sorrisos amarelados
Perambulam nas esquinas
Frágeis como passarinhos
Os meninos e as meninas
Filhos das filhas das ruas
Donos dos bancos das praças
Pés-de-vento, pés descalços
Desamados, destemidos
Perseguem-lhes os cães de raça.

Vira-latas das esquinas
Frágeis aves de rapina
Armados de pedra e pau
Os meninos e as meninas
Pastores das alvoradas
Atravessam madrugadas
Sempre em estado de graça
Adormecem ao relento
Parecem donos do tempo
Perseguem-lhes os cães de caça.

Borboletas sob o sol
Vaga-lumes sob a lua
Sem presente e sem porvir
Quebram cercas, pulam muros
Sem saber pra onde ir
Os meninos e as meninas
Entre ódios e branduras
Guerrilheiros de almas puras
Maltrapilhos, quase nus
Têm um coração que clama
Uma alma que reclama
São todos anjos da terra
Essas crianças de luz.


CARTA DE ALFORRIA

Eu não queria carregar os meus poemas,
com as minhas próprias mãos.
E levá-los como o faço,
tímida e constrangida,
ao encontro dos homens.

Queria que os meus poemas voassem
leves, soltos, libertos por aí.
E com suas próprias asas, atravessassem
o tempo, ganhassem o mundo.

Poemas atemporais que invadissem corações.

Por que será que os meus poemas,
cafusos, mamelucos, mulatos, caboclos,
dependem tanto assim de mim?
Será que esses meus poemas
ainda vivem nas senzalas?

Tristes poemas cativos!
Nem percebem que têm o destino dos pássaros.


POÉTICA

Poemar é ser abelha,
borboleta, passarinho.
De noite, dormir no ninho.
Madrugada, versejar.
De dia, voar, voar...
Aventurar-se aos auspícios.
Nem que tenha que fazer
o maldito cocozinho
na cabeça do Vinícius.


MATER DEI
Para André Bernard,
meu filho de alma gitana.

Você brotou. Em mim, nasceram luzes.
O breu do universo se desfez.
Eu, radiosa, iluminava tudo.
Como as estrelas, no meio da noite.
E como o sol, encandescendo o mundo.
Amei você pela primeira vez.
Seu coração ruidoso, no meu corpo,
pulsava em mim. Eu era a Mater Dei.
E ao te sentir o corpo, buliçoso,
fazer folia junto ao corpo meu,
lacrimejei meu riso venturoso.
Pela segunda vez, então, te amei.
Enquanto a tua vida me expandia,
algum mistério novo acontecia.
Até que em mim, o amor feriu-se em dor.
Entre a tormenta que em mim doía,
eu, transbordando dor e alegria,
senti meu sangue quente a escorrer.
E do meu sangue, vi você nascer.

Virei Nossa Senhora, a mãe do mundo.
E fiz do Deus Menino o filho meu.
Segui teus gestos, a cada segundo.
Mãe-de-leite zelosa, fartas mamas,
ao ver meu sangue transmutado em leite,
e ao ter você, bezerro, no meu peito,
senti dos Budas todos os nirvanas.
Vivi a plenitude do deleite.
O de ser vida. Ser o alimento.
Senti uma transformação maior por dentro.
Vi que era mais que a Mãe. Eu era Deus.
E foi então que fiz um juramento:
jamais deixar sofrer os filhos meus.
Do meu sangue, fiz teu alimento.
Do meu corpo, fiz teu cobertor.
Teci para você um belo ninho.
E como faz a ave ao seu filhinho,
abri-te as asas, dei-te o meu calor.

Segui teu tempo de crescer e de voar.
Sempre ao teu lado, como um animal,
cumprindo o meu instinto, visceral,
acompanhei-te a cada caminhar.
Vi você, pastor, tocando flauta.
Você, anjinho, tocando bandolim.
Adormeci ao som da tua gaita.
E a vida quis te separar de mim.
Percorri mundo, qual uma cigana.
Você, em mim, a viajar comigo.
E a saudade, banzo de quem ama,
tatuava em meu corpo o meu castigo.
Cravejava em meu peito essa desdita.
A incomensurável dor que não reclama.
Que faz de toda mãe uma alma aflita,
a tatuar, no peito, o próprio filho.
A transformá-lo em seu mote perpétuo
. Como se o filho, esse andarilho incerto,
houvesse de seguir seu velho trilho.

Acho que desertei. Saí de mim.
Cansei de padecer no desengano.
Só espero que minh'alma bucaneira,
a mesma alma que te fez gitano,
alcance te esperar a vida inteira.
Alcance te amar, vida após vida.
A cada dor. A cada despedida.
A cada ato do teatro humano.

Kátia Drummond
Salvador Bahia Brasil


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