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Flávio Calazans - Publicado em 25.08.2003


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Marjane Satrapi é uma mulher que cresceu no Irã e desafiando uma rígida e rigorosa moral ousou desenhar um álbum de Histórias em Quadrinhos auto-biográfico retratando sua infância crescendo no meio de uma revolução religiosa islâmica e uma guerra com o Iraque: Persepolis.

Com um estilo simplificado, esquemático e elegante em sua economia de traços quase minimalista, com um aspecto geral que faz lembrar xilogravura, Satrapi provoca desde o título, Persépolis era o nome da antiga capital do Irã antes da revolução fundamentalista islâmica.

A obra teve inesperado sucesso, Best Seller traduzida em inglês, francês, alemão, holandês, italiano, espanhol e português.

A HQ é narrada de forma inteligente do ponto de vista de uma menininha que faz perguntas que adultos nunca ousariam fazer, sobre os crimes do Xá, a violência da revolução religiosa islâmica, e sobre os bombardeios do país islâmico vizinho Iraque...ironizando sutilmente, sub-reptíciamente a propaganda e os modismos, onde ela era ensinada que Deus (Alá) escolheu o Xá para reinar, depois que o mesmo Deus expulsa o Xá e fundamenta as decisões de Aiatolás interpretando o Corão de modo Xiita, inclusive com as alunas tendo de rasgar a foto do Xá de seus livros.

Em suas fantasias de menina, ela se imagina uma profeta ou escolhida (como Fátima, filha de Maomé) Satrapi imagina-se falando com Deus (Alá) na cama antes de dormir; já mais crescida, durante a revolução fundamentalista imagina-se como um Che Guevara numa Jihad (Guerra Santa, um tipo de Cruzada) e conhece amigo da família que sai da prisão e descreve as torturas nas solas dos pés famosas no mundo árabe. Na rua, ela e as amigas brincavam de interrogatório e torturas com naturalidade, enquanto eram obrigadas a usar véu na escola e depois nas ruas e inocentemente amarrando os véus para brincar de pular-corda.

A mãe fechando as cortinas para os vizinhos não delatarem que jogavam cartas, jogos com baralhos eram proibidos..até a mãe desmaiando quando despede-se da filha no aeroporto de Teerã, filha enviada para estudar e refugiar-se na França para preservá-la da brutalidade contra as mulheres desta interpretação radical do Corão.

Fragmentos de memórias episódicos são retratados e aos poucos vão formando um quadro do ambiente do Irã naquele período, um tipo de retrato histórico, um diário ou livro de memórias desenhado pela óptica feminina atenta a mínimos detalhes que dão o sabor realístico ao conjunto da obra.

Um exemplo de Quadrinho produzido por mulheres que torna-se best seller internacional como a Argentina Maitena, talvez indícios de uma tendência de mercado como resistência à visão machista norte-americana de uma Globalização como sinônimo não-declarado de americanização.

Em entrevista à Time de 2 de junho de 2003, Satrapi dispara uma declaração ousada e corajosa:
“O que eu gostaria seria de ver os EUA dizendo: - Não damos bola pra vocês, nós somos o Leão da selva, e nós estamos devorando vocês por que nós somos mais poderosos - isto seria legal, mas toda esta falação sobre bondade e libertação e – nós amamos vocês - me dá enjôo!”

Este é o tom de seus álbuns, cujo terceiro volume está saindo este ano.

Vale a pena conhecer esta nova voz que não se retrai ou intimida e denuncia a hipocrisia deste Século XXI, onde discursos infantilóides sobre “Eixo do Mal”, “Libertar o Povo da Ditadura” e sucessivas guerras agressivas no Afeganistão e Iraque sob falsos pretextos e mentiras só mostram a verdadeira face do Leão que Satrapi desnuda - arrogante no topo da cadeia alimentar e nos olhando como meros aperitivos.

Um império pior que foi o Romano, Césares como Calígula e Nero não tinham um arsenal atômico que pode destruir todo o planeta, confortavelmente, há muitos entre nós que gostam de fingir esquecer deste fato. Em meus pesadelos vejo um novo Nero eleito tocando guitarra elétrica enquanto incendeia Roma, digo, O MUNDO, e depois nem precisará culpar os cristãos (ou Bin Laden) pois não sobrará nada nem ninguém para quem dar satisfações.

Um Leão predador que está aí rondando e nos farejando, e que muitos preferem continuar a fingir que não vêem enquanto não vier de bocarra escancarada na direção do nosso quintal amazônico cheio de biodiversidade e patentes farmacêuticas e de nossa valiosa bacia hidrográfica.

Pois quando, conforme previsto pela ONU, em 2025 não houver mais água suficiente que dê conta para abastecer as mega-cidades do primeiro mundo-que continuam crescendo como tumores de câncer... a sede de Petróleo que hoje motiva o Leão será substituída por uma muito mais urgente sede de água...e nós, “Brazil”, somos o país com maior volume de água potável disponível para ser saqueado, digo, “Libertado”.

Benjamin Franklin, um intelectual, foi contra a escolha da Águia como símbolo dos EUA, seu argumento foi de que era um animal de rapina, traiçoeiro e cruel. Este animal é o arquétipo subliminar que está presente desde as moedas do dinheiro até o selo do presidente, incutindo no inconsciente de gerações de filhos do Leão o modelo de comportamento da ave de rapina traiçoeira...e todos os que defenderem seus respectivos países ao invés de patriotas recebem do Leão o estigma de antiamericanos.

Bem-vindas as patriotas e vozes da resistência (como os Maquis franceses contra a invasão Nazista) de corajosas cidadãs do mundo como Marjane Satrapi.

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• Persépolis 1 - MARJANE SATRAPI
• Persépolis 2 - MARJANE SATRAPI
• Persépolis 3 - MARJANE SATRAPI

Quem é Marjane Satrapi
22.11.1969 - Rasht, Irã
Novelista e ilustradora iraniana. Ficou famosa em sua novela em quadrinhos, Persépolis, que conta a difícil vida de uma menina de família progressista durante a Revolução Islâmica. Com o agravamento da Guerra Irã-Iraque Satrapi se mudou para Viena aos 14 anos de idade, retornando ao Irã para a faculdade. De lá, migrou para a França, onde mora atualmente trabalhando como ilustradora e autora de livros infantis.


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