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Rafael Lasevitz - Publicado em 04.10.2003


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O pensamento da vigia constante sempre soou como aquele algo aterrador para o Homem, ou pelo menos em parte. A observação alheia costuma ser expressa como um pesadelo antrópico, desde as ideologias orwellianas até o pensamento de Bentham e Foucault e, por quê não, presente até mesmo nas idéias vertiginosas de uma janela indiscreta hitchcockiana.

Podemos inclusive ressaltar as semelhanças entre as idéias de Orwell e Foucault. Se por um lado, temos a vigia apenas suposta, com "teletelas" que, teoricamente, podem estar nos observando a qualquer instante, a cada passo, ou passo nenhum, por outro temos a mesma incerteza, a mesma inseguridade, relacionada até mesmo à veracidade de tal observância e à própria origem do observador que pode ser mesmo um ente da própria família em visita familiar.

Sem aprofundarmo-nos mais em termos literários, prendamo-nos a idéia da auto-vigilância. Bentham, o filósofo do utilitarismo, foi talvez o pioneiro na exploração de tal aspecto humano. O medo seria então um dos principais fatores para a manipulação do comportamento do homem que, preso na incerteza da ocorrência de tal vigia no momento do ato expugnável, é repreendido não pela hierarquia de um Estado ou um sistema penitenciário, mas, subconscientemente, por si próprio.

Voltando à Orwell e Foucault, Orwell apresentava ainda o fator da idolatria ao vigilante, o ser supremo que regeria os atos de toda uma comunidade. São realmente conceitos auto-complementares: o medo reforça a idolatria e, a partir do respeito e da inflexibilidade pertinente à própria idolatria, percebe-se consecutivamente o reforço do medo.

Pensemos então na Doutrina Bush. O conceito disseminado pela mídia ocidental como "terrorismo", especialmente após o 11 de Setembro, nada mais fez do que reforçar o medo psicológico em toda a população dos EUA e, mesmo que não tão intensamente, de todo o Hemisfério. O povo, aterrorizado pelo suposto perigo iminente, passa a idolatrar seu protetor supremo, o Estado, que começa então a difundir enfim uma sensacional idéia de, nada menos do que uma Teocracia de Estado. Este passa a ser inquestionável; imbatível e ao mesmo tempo vulnerável, já que o próprio alerta constantemente sua população ao perigo próximo. Claro que a Doutrina Bush acabou sendo mal executada, tanto que o próprio dificilmente será reeleito em sua próxima candidatura - o que não significa que sua tentativa foi completamente falha, muito pelo contrário. O povo está desesperado, não está?

De fato, o uso conceito de "terrorismo" implica inevitavelmente no domínio de qualquer povo ou população. E implica não apenas na resplandecência das necrofobias humanas, mas também no fato de que o inimigo pode ser externo - não é jamais o próprio Estado, em teoria -, indefinido - afinal, mais uma vez falando em termos teóricos, não seria um ato praticado por qualquer nação pre-determinada, mas sim por múltiplas organizações difundidas pelo mundo, que podem surgir a qualquer instante, de qualquer lugar - e indestrutível, já que não há um governo a ser deposto.

Uma interessante analogia pode ser feita com a situação, durante a Guerra do Iraque, dos jornalistas "embedded" - ou seja, infiltrados junto ao próprio exército da chamada "coalizão". Foi a primeira vez na história bélica do ocidente que a mídia pôde conviver ao lado dos soldados de uma nação, e não apenas cobrir à distância tal mirabólico evento. Perceba porém que este jornalista está, desta forma, extremamente exposto aos próprios perigos do espetáculo armamentício, entrando assim em contato com aquele medo, de Bentham, de Fo ucault, de Orwell e tantos outros. O exército passa de matéria de um sensacionalismo midiático à forma primeira de proteção ao próprio indivíduo que ali está. Como iria então tal jornalista servir depois como fonte crítica para a instituição que, psicologicamente ou fisicamente, que seja, deveras salvara a sua vida?

O medo é uma das mais poderosas fontes de alienação natural. É sim necessário biologicamente para a sobrevivência do ser vivo e portanto, sua exorbitância é uma vantagem para qualquer um deles. A partir da manipulação deste medo, o homem acaba voltando à preocupação primordial, sua própria existência. Manipulados ou não, pensantes ou não, por mais que não queiramos aceitar, todos apenas queremos estar vivos. Infelizmente.


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