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  Márcio Salgues - Publicado em 19.11.2003


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Cursos, palestras, livros de técnicas de marketing com recheio de auto-ajuda e outros tantos que pretendem ensinar como se tornar um bom vendedor proliferam por toda parte. Não sem razão. A infinidade de quinquilharias à venda requer métodos mais sofisticados e adequados para nos ludibriar, moldando nosso perfil consumista, fazendo-nos comprar produtos muitas vezes inúteis e ainda incorporando esses produtos ao nosso cotidiano, que é o propósito final da venda. Aliás, para aprender as técnicas oferecidas você precisa começar por comprá-las. E hoje requer-se que todos sejam vendedores hábeis. Do Presidente da República ao camelô da esquina. Do cirurgião plástico ao professor dos cursinhos de adestramento pré-vestibular. A coisa é tão séria que, graças a campanha vitoriosa de Lula, Duda Mendonça tornou-se um quase ministro da propaganda do governo.

E hoje se vende de tudo. Little Bush, por exemplo, em meio à crise econômica americana, decidiu vender democracia ao mundo árabe por uma módica quantia em petróleo, usando a tática da bala. E, de quebra, ainda criou uma demanda por serviços de construção civil que irá gerar receita para a coalizão de empreiteiras anglo-americanas. Simplificando: Eu quebro e você me paga. Com isso, se seus planos forem executados todos a contento, ficará faltando muito pouco para que o mundo se transforme numa grande feira livre. Mas, talvez, dos males esse seja o menor.

O que me incomoda nisso tudo é que, ao mesmo tempo em que somos instigados a vender de maneira mais eficiente, estamos nos tornando uma raça de consumidores descerebrados e sem nenhum senso crítico. Uma sociedade movida tão somente pelas relações de consumo e regida pelas leis de mercado, entidade que se tornou uma espécie de guia espiritual, ou melhor, material da humanidade. As relações humanas são cada vez mais superficiais, individualistas e baseadas em interesses.

Hoje o mercado é que nos diz quais são as nossas necessidades e ele mesmo nos oferece o produto que as satisfaz. Por exemplo, e só para ficar no campo das trivialidades: o mercado diz que mulher bonita e sedutora é a que tem seios enormes, embora nem todos os homens achem isso. Então o mercado oferece próteses cada vez maiores. A dondoca vai e põe uma prótese de 250 mililitros e se sente uma estrela, uma musa. Vá entender o que se passa nessas cabecinhas saturadas de folhetins! O mercado diz que liberdade é ter um determinado modelo de carro. É sinônimo de sucesso, atrai as garotas, etc. Aí o marmanjão da classe média põe a corda no pescoço, compra o carro e se sente livre, ainda sob o efeito hipnótico do anúncio. Nada contra os chamados “sonhos de consumo”, mas seria interessante questionar as nossas motivações consumistas. A prioridade do ato de consumir em detrimento dos valores humanos é que está nos tornando desumanos. Autômatos feitos para consumir e ser consumidos, até que termine o nosso prazo de validade.

Não adiantam ilusões comerciais. O caso da criança pobre que, aos trancos e barrancos e contra todas as circunstâncias, cresce e se torna um profissional bem sucedido financeiramente é belo, porém é a raríssima exceção. A maioria crescerá e permanecerá pobre. E o estímulo desenfreado que alimenta as falsas esperanças do “você também pode ter”, além de descerebradas, fará dessas crianças pessoas deprimidas, quando não violentas, que jamais entenderão o porquê de suas limitações.

Tomo emprestado os ideais humanistas da revolução francesa. Boas doses de Liberdade, Igualdade e Fraternidade na sociedade moderna, não apenas como um arroubo romântico, mas como um alvo a ser perseguido, minimizariam consideravelmente a nossa mediocridade, bem como nos conservaria humanos.


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