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Notas sobre Matrix
Lázaro Curvêlo Chaves - Publicado em 17.12.2003

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Este mexe mesmo com a cabeça da gente: este mundo não é real, é “virtual”. As máquinas tomaram conta do mundo e todos seguem os esquemas por elas montado no sentido de uma vida “suave e feliz”, mas sem liberdade. A busca da liberdade é o cerne da trama. Poucos heróis anti-aparato-estatal tomam a si a dificultosa incumbência de reencaminhar o mundo do caos em que se encontra na direção da verdadeira ordem em paz, felicidade e muita liberdade. As dificuldades de praxe no lidar com as coisas do Estado autoritário são aqui recolocadas, mas num patamar e segundo uma perspectiva totalmente diferente.
Se em “Nell” há a eterna discussão da luta por um lugar ao sol longe e à revelia do Estado, em “Matrix” vemos uma guerra declarada ao Leviatã estatal...
Este mundo não é real, é virtual. As máquinas, basicamente computadores de ponta, que atingiram “inteligência artificial”, tomam conta do planeta e tudo o que acontece é monitorado para que seja satisfatório à máquina, não ao humano. Poucos têm acesso à realidade em computadores não submissos ao sistema. Um tremendo jogo de espelhos que tende a dificultar a mera compreensão do filme, que se precisa assistir pelo menos duas vezes para captar-lhe a essência. O mundo real somente é acessível a poucos que detêm a tecnologia necessária a simula-lo em computadores. Fora desta realidade é o virtual eivado de realidade existente no mundo prático-pragmático.
Um jovem programador passa noites a fio procurando alguma coisa, sentindo que há algo de muito errado com o mundo (a empatia com o jovem, rebelde por definição, é imediata). Quem chega a intuir que há algo de muito errado com o mundo sente-se imediatamente em casa neste trabalho primoroso.Tanto busca que acaba sendo encontrado pelo grupo de guerrilheiros anti-estatais comandados por um ativista cognominado “Morfeu”. Alcunha perfeita pois, em sua luta, estão todos adormecendo nos braços dos computadores que resistem ao sistema para que toda a espécie humana possa despertar do sono em que se encontra.
“Sião” é novamente a terra prometida, a única cidade que resiste à nova ordem impessoal das máquinas que tomam conta do mundo. Cidadela isolada, distante e livre de qualquer possibilidade de acesso a não humanos ao longo do filme. Ponto de chegada e de partida de quantos ainda são humanos neste mundo.
O jovem programador é convidado a conhecer mais (conhecer é poder, controle, domínio) e lutar pela libertação do mundo. Fica sabendo que ele, “Neo”, é O Escolhido, aquele que, por ser capaz de atuar operacionalmente contra a ordem é capaz de lutar e mostrar aos homens o caminho da libertação. Morfeu é o seu mestre, que o reconhece e que logo será superado.
Como lutar contra a escravidão se há séculos o homem nasce escravizado? Esta questão, antiga como o Estado, foi excepcionalmente trabalhada pelo Renascentista Etienne de La Boétie. A sede pela liberdade já assombrava os sonhos de Espártaco no Império Romano. A atualidade desta inquietação no mundo globalizado, neoliberal e todo em rede desassossega. Para além das alegorias apresentadas no filme, com direito a efeitos especiais primorosos e devidamente premiados há a reflexão em torno da luta do homem pela sua emancipação face a um poder massacrante contra o qual não há acordo possível.
Contra toda a evidência – e até porque a alternativa para aquele que despertou é a insuportável “Servidão Voluntária” – a luta do humano para emancipar-se segue plena e eficaz. Não importa tanto ter sucesso na luta. Importa não capitular, pois capitular é transformar-se no próprio algoz. A atividade humana desapegada tem um potencial revolucionário raramente tão bem explicitada.
O aprendiz tem de “morrer” e “ressuscitar”, precisa dominar técnicas novas, precisa dominar acima de tudo o seu próprio medo e conformismo. Precisa viver e deixar viver em permanente luta contra os algozes da vida plena e real.
“Matrix” é o nome do Estado, da nova ordem mecânica a que os seres humanos devem submeter-se. Trata-se de um conjunto de máquinas capazes de fazer crer em qualquer coisa, atuando diretamente no nível neuronal das pessoas. Contra esta, somente uma outra máquina, a serviço do humano, não mais servindo-se dele. O embate final, entre o humano imaginativo, criador de um lado e, de outro os representantes da “ordem”, os agentes da máquina, é um primor de alegorias. Faz-nos recordar de todos os momentos históricos em que a nossa espécie avançou na direção certa, sempre sob a orientação de um líder carismático a serviço de um poder superior que por vezes nem ele entende, a princípio. Feita a harmonização entre o guerrilheiro da inovação e o poder superior a que pertence e o mundo inteiro pode ser reconduzido à paz, à verdadeira ordem e harmonia, a partir de preceitos humanos.
“Matrix” é o Capital. “Neo”, “Morfeu” e os lutadores pela emancipação são os libertadores humanos, são os guerrilheiros humanistas que restauram a ordem, a harmonia universal. Uns poucos seres humanos idealistas lutando pelo que é bom, justo, correto dobram, jugulam a autocracia dominante. Tal não tem sido assim na história da humana espécie? Recomendo acompanhar este belo filme com muita atenção. A mesma que outrora se devotava ao “Manifesto Comunista”, ao “Discurso da Servidão Voluntária”, ao “Manifesto do Surrealismo”. Vale a pena!
Atualizando: Matrix – Política, metafísica, gnosticismo...
É sem dúvida um grande mito da modernidade a que já assisti diversas vezes!
Tudo é dor e ilusão – antigo ensinamento budista – o que chamamos de “realidade” não passa de mera ilusão dos sentidos. Futuristicamente, os irmão Larry e Andy Wachowski, até então pouco conhecidos, mixam aspectos do cristianismo com aqueles do Budismo e do Hinduísmo, no que ficou conhecido como “gnosticismo”.
Referências a “Messias”, “O Escolhido”, “Zion (Sião)”, Trinity (Trindade) correm paralelas a filosofias orientais. Todos dormem, é necessário “acordar”, eis um dos cernes da filosofia budista. Viver no mundo “acordado”, ser “aquele que despertou” é ser o Iluminado, o Buda. Em duas cenas, uma no primeiro filme, outra repetida no “Reloaded”, o “Messias” Neo estende a mão e paralisa balas que lhe são disparadas. Sidartha Gauthama, o Buda, também foi atacado pelo exército de Mara (deus da ilusão) e todas as flechas, bombas, armas enfim disparadas contra ele transformaram-se em pétalas de flores, reza a tradição.
Além das referências religiosas, que prendem a atenção, há a questão política da luta de um grupo idealista contra o Poder Estabelecido e autoritário, o comunismo de tipo moderno...
Todos sabemos que o comunismo e a religiosidade têm uma ligação estreita, umbilical! Gente de elevada índole intelectual e moral a lutar por um mundo e uma vida melhor para todos são os principais pontos comuns entre a política e a fé – ligação que hoje só encontramos, vale ressaltar, no Islã. É uma alegria ver um filme cristão, com eivores budistas, orientais, a trazer-nos as mesmas reflexões.
Filme: Matrix
Título original: The Matrix
País: Estados Unidos
Ano: 1999
Idioma: Inglês
Direção: Andy Wachowski e Larry Wachowski
Roteiro: Andy Wachowski e Larry Wachowski
Gênero: Ação / Ficção-Científica / Thriller
Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving, Gloria Foster, Joe Pantoliano, Marcus Chong, Julian Arahanga, Matt Doran, Belinda McClory, Anthony Ray Parker, Paul Goddard, Robert Taylor, David Aston, Marc Gray, Ada Nicodemou, Denni Gordon, Rowan Witt, Elenor Witt, Tamara Brown, Janaya Pender, Adryn White, Natalie Tjen, Bill Young, David O'Connor, Jeremy Ball, Fiona Johnson, Harry Lawrence, Steve Dodd, Luke Quinton, Lawrence Woodward, Michael Butcher, Bernard Ledger, Robert Simper, Chris Scott, Nigel Harbach, entre outros.
Filme: Matrix Reloaded / Matrix 2
Título original: The Matrix Reloaded / The Matrix 2
País: Estados Unidos
Ano: 2003
Idioma: Inglês / Francês
Direção: Andy Wachowski e Larry Wachowski
Roteiro: Andy Wachowski e Larry Wachowski
Gênero: Ação / Ficção-Científica / Thriller
Elenco: Ray Anthony, Christine Anu, Andy Arness, Alima Ashton-Sheibu, Helmut Bakaitis, Steve Bastoni, Don Battee, Monica Bellucci, Daniel Bernhardt, Valerie Berry, Ian Bliss, Liliana Bogatko, Michael Budd, Stoney Burke, Kelly Butler, Josephine Byrnes, Noris Campos, Collin Chou, Paul Cotter, Marlene Cummins, Attila Davidhazy, Essie Davis, Terrell Dixon, Nash Edgerton, Laurence Fishburne, Gloria Foster, David Franklin, Austin Galuppo, Nona Gaye, Daryl Heath, Roy Jones Jr., Malcolm Kennard, David Kilde, Randall Duk Kim, Christopher Kirby, Peter Lamb, Nathaniel Lees, Harry J. Lennix, Tony Lynch, Robert Mammone, Joshua Mbakwe, Matt McColm, Scott McLean, Chris Mitchell, Steve Morris, Carrie-Anne Moss, Tory Mussett, Rene Naufahu, Robyn Nevin, David No, Genevieve O'Reilly, Socratis Otto, Harold Perrineau, Jada Pinkett Smith, Montaño Rain, Adrian Rayment, Neil Rayment, Rupert Reid, Keanu Reeves, David Roberts, Shane C. Rodrigo, Nick Scoggin, Kevin Scott, Tahei Simpson, Frankie Stevens, Nicandro Thomas, Gina Torres, Andrew Valli, Steve Vella, John Walton, Clayton Watson, Hugo Weaving, Cornel West, Leigh Whannell, Bernard White, Lambert Wilson, Anthony Wong, Anthony Zerbe, entre outros.
Filme: Matrix Revolutions / Matrix 3
Título original: The Matrix Revolutions / The Matrix 3
País: Estados Unidos
Ano: 2003
Idioma: Inglês / Francês
Direção: Andy Wachowski e Larry Wachowski
Roteiro: Andy Wachowski e Larry Wachowski
Gênero: Ação / Ficção-Científica / Thriller
Elenco: Mary Alice, Tanveer K. Atwal, Helmut Bakaitis, Kate Beahan, Francine Bell, Monica Bellucci, Rachel Blackman, Henry Blasingame, Ian Bliss, David Bowers, Zeke Castelli, Collin Chou, Essie Davis, Laurence Fishburne, Nona Gaye, Dion Horstmans, Lachy Hulme, Christopher Kirby, Peter Lamb, Nathaniel Lees, Harry J. Lennix, Robert Mammone, Joe Manning, Maurice Morgan, Carrie-Anne Moss, Tharini Mudaliar, Rene Naufahu, Robyn Nevin, Genevieve O'Reilly, Harold Perrineau, Jada Pinkett Smith, Kittrick Redmond, Keanu Reeves, Rupert Reid, Kevin Michael Richardson, David Roberts, Bruce Spence, Richard Sydenham, Che Timmins, Gina Torres, Clayton Watson, Hugo Weaving, Cornel West, Bernard White, Lambert Wilson, Anthony Wong, Anthony Zerbe, Craig Walker, entre outros.
Artigos sobre a Matrix publicados no Duplipensar.net:
Universo Matrix - Igor Garcia
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