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Vende-se um planeta em bom estado!
Márcio Salgues - Publicado em 08.01.2004
Como se já não bastasse tudo que se vende por aí, uma das questões mais debatidas na atualidade é a privatização dos recursos hídricos. Querem privatizar a água meu Deus!
Certamente o leitor já leu essas estatísticas em algum lugar, mas vamos lá: cerca de 70% da superfície terrestre é coberta de água. Deste total, 97% é água salgada que se acumula nos mares e oceanos; 2,493% é água doce, mas concentrada nas geleiras e aqüíferos de difícil acesso; 0,001% da água está na atmosfera. De todo esse volume, 0,006% é a água doce encontrada nos rios, lagos, e águas subterrâneas de fácil acesso para o nosso consumo. Só para fazer uma comparação imaginem o planeta como um balde, com capacidade para 100 litros, cheio d´água. Desses 100 litros, dispomos para consumo algo como uma colher de sopa. Pois bem, é essa “colher de sopa” de água que se pretende ter controlada pelo capital privado.
Bem, teoricamente a água é um direito humano, já que é impossível sobreviver sem ela, e nós pagamos à administração pública pelos serviços de saneamento básico e tratamento dessa água. Apesar de a maior parte da população do país não dispor de saneamento básico. Mas isso não vem caso agora. Explorar comercialmente a água não é como explorar minério de ferro. Eu não preciso comer 100 gramas de pregos todos os dias para me manter vivo. Mas, considerando, que a maioria da população não sabe mesmo aproveitar a pouca água de que dispõe, talvez essa seja mesmo uma boa idéia. Sempre que se mexe no nosso bolso, nós acordamos para os desperdícios.
Só para me limitar às pequenas atividades rotineiras do lar, talvez até mesmo você, caro leitor, seja um desses cidadãos cabeçudos que enquanto lavam o carro, fazem a barba, dão banho no Pitbull, ou escovam os dentes, deixam a torneira aberta enquanto a água se esvai pelos ralos e bueiros. Talvez até mesmo você, prezada leitora, seja uma dessas cidadãs também cabeçudas, que costuma passar horas varrendo a calçada de casa com um jato d’água, deixa a torneira da pia aberta enquanto ensaboa a louça, ou fica batendo papo no telefone enquanto a ducha do banheiro está aberta. E por falar em banheiro, só o vaso sanitário sendo acionado três vezes por dia, por quatro pessoas, numa família média, consome 4.320 litros de água potável por mês. Considerando uma população de 170 milhões de habitantes, gastamos por mês 183,6 bilhões de litros de água potável com fezes, cocô. Me perdoem o termo, m* mesmo. Mais da metade da humanidade seria capaz de matar para beber um copo dessa água. É bom que você comece a pensar nisso toda vez que for usar o banheiro.
Mas já que é para vender recursos essenciais a vida no planeta, vou aproveitar para sugerir que o ar que respiramos também seja vendido à empresas dispostas a explorar esse filão. Pode-se construir abóbadas de acrílico sobre casas e condomínios que seriam abastecidas pela empresa fornecedora do ar. Se você não pagar a fatura mensal, corta-se o fornecimento. Simples. Os condomínios mais ricos ainda podem optar por abóbadas fotocromáticas, que oferecem proteção contra os raios infravermelhos do sol e um ar enriquecido com vitaminas e sais minerais, e disponível nos aromas flores do campo, eucalipto e flor de lótus tibetanos, totalmente livre de impurezas. Nas favelas, é só instalar uma abóbada popular, de acrílico barato, desse tipo dos óculos que se vendem nos camelôs. O abastecimento de ar pode ser feito periodicamente, por veículos do tipo “fumacê”. Aqueles modelos típicos de Terceiro Mundo que ficaram famosos graças aos nossos mosquitos Aedes Aegipt, que seguiam pelas ruas fazendo barulho enquanto lançavam inseticidas no ar. Inclusive, logo estarão de volta na versão 2004.
Caminhar pelas ruas também não seria problema. Graças a Jacques Costeau, que criou os famosos “aqualungs” para mergulho, cada cidadão poderia andar tranqüilamente com o seu próprio, em versões Louis Vuiton, Gucci, Pierre Cardin, Samsonite, ou uma imitação de pirateada, encontrada em qualquer centro urbano. Lógico que haverá postos de abastecimento em shoppings, lojas de conveniência, bancas de revistas, etc.
Aliás, já que é para avacalhar mesmo, é melhor colocar uma gigantesca placa de “Vende-se! Planeta em bom estado, com apenas 4 bilhões de anos!” fincada nos pólos e enviar, via sinais de rádio, quatrilhões de mensagens de propaganda em forma de “spam”, tipo essas propagandas insuportáveis – a maioria oferecendo aparelhos para aumentar o pênis em 10 centímetros – que enchem minha caixa de correio eletrônico diariamente. Quem sabe assim, apareça uma civilização de um planeta distante, ramificação do Greenpeace, que seja evoluída, fraterna e filantrópica; compre logo essa nossa joça e faça uma reforma, transformando a Terra em um lugar decente. Um tipo de reserva ecológica.
Obviamente, há também o risco de, dependendo da civilização investidora, o planeta virar uma espécie de Templo Literalmente Universal do Reino de Zurg, ou mesmo se tornar uma filial de alguma franquia espacial de fast food. Um tipo de Mac Donald´s Sideral, onde nós seremos a carne do hambúrguer.
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