Batatas: o grande tesouro das Américas < Duplipensar.net
 

 



Paulo Alexandre Filho - Revisado em 28.01.2007

Nos Andes pré-colombianos, as vigorosas civilizações que lá se estabeleceram cultivaram uma cultura extraordinária, conceberam seus conhecimentos técnico-científicos precisos e peculiares, cultuaram suas divindades, realizaram seus complexos ritos religiosos e possuíam sob seus domínios verdadeiras preciosidades.

Enquanto os índios dos Andes viviam isolados e resguardados no coração da América,
  Batatas: o grande tesouro das Américas
 


 

na Europa dos navegadores e do Mercantilismo, a necessidade da busca pela riqueza e pela prosperidade lançou aos mares desconhecidos o ímpeto pela descoberta de fontes para incrementar o mercado, os negócios e os lucros que o comércio geravam. Através deste ímpeto, os espanhóis aportaram num novo mundo e reconheceram nele uma inesgotável capacidade de provimento dos mais ambiciosos interesses que moviam os conquistadores, que se defrontaram com o "el dourado" indígena.

Havia ouro, muito ouro, no Império Inca, contudo, os indígenas não atribuíam ao metal o mesmo valor que os europeus. Para o povo inca, o ouro servia principalmente como matéria-prima para a produção de utensílios decorativos para adornar os templos e palácios. Não possuía valor de troca nem agregava valor em si mesmo, não era, enfim, o tesouro dos índios, contudo, por causa dele foram dominados, escravizados e dizimados.

Os incas tinham outra dimensão para a noção de "preciosidade". Precisavam de produtos que efetivamente assegurassem sua subsistência e tais produtos eram exatamente os comestíveis, aqueles que conseguiam através de seu sofisticado sistema de agricultura. Neste sentido, o ouro não poderia ter maior importância que os seus principais produtos agrícolas, base de sua nutrição: o milho e as batatas.

Os espanhóis saquearam todo o ouro que puderam encontrar logo nos primeiros contatos com os nativos andinos e levaram esta valiosa carga para a Europa, sinal de que as suas expedições foram plenamente bem executadas. Houve, contudo, quem, dentre os exploradores e saqueadores, percebesse que outras fortunas estavam no solo inca. Este foi o caso de um modesto cozinheiro que servia na expedição. Ele percebeu que os nativos comiam uma espécie de vegetal exótico, um tubérculo de aspecto um tanto quanto estranho em relação aos gêneros alimentícios costumeiros entre os espanhóis. Sua curiosidade o incentivou a levar consigo o seu próprio saque: uma quantidade relevante do tal tubérculo. Durante a viagem de volta à Espanha, buscou incentivar a tripulação a degustar a novidade, mas poucos se aventuravam e quase sempre reprovavam a estranha refeição. Os víveres perecíveis que levavam iam escasseando ou deterioravam-se progressivamente, mas as batatas permaneciam plenamente conservadas. A carência de provisões acabou implicando no uso das batatas e a nova refeição não apenas conseguiu aplacar a fome dos viajantes, como ainda surtiu notável efeito quanto à prevenção de uma praga das viagens marítimas: o escorbuto.

O desembarque da batata na Europa foi, em termos imediatos, um fracasso. O cozinheiro não conseguiu convencer muitas pessoas quanto a todas suas vantagens, contudo ele mesmo decidiu cultivar a novidade em suas terras - um cultivo relativamente simples, pois a batata rendia em qualquer solo, sem grandes cuidados e em um período de tempo bastante curto. Somente ele apreciava a batata, mas estava decidido a difundir seu cultivo. Plantava batatas em toda parte e até levou consigo mais delas em uma nova empreitada marítima: a investida espanhola contra a Inglaterra em 1588, que redundou na destruição da Invencível Armada espanhola, que fora invencível até aquele instante. O cozinheiro chegou como náufrago até a pobre Irlanda e com ele umas amostras de seu poderoso e rico alimento. Os famintos irlandeses decidiram experimentar e plantar as batatas e logo qualquer pequeno agricultor conseguiu uma importante fonte alimentar que passou a ser abundante no precário solo irlandês, onde, com bastante dificuldade, tentava-se plantar o trigo que pouco rendia com condições climáticas e pobreza do solo. A cultura da batata na Irlanda e na Grã-Bretanha foi sendo difundida mesmo com as alusões religiosas que recaíam sobre a nova base calórica britânica: batatas são geradas abaixo da terra e não há referência a elas na Bíblia, seriam elas coisas do Demônio? De tão incorporadas aos hábitos alimentares britânicos, foi uma calamidade geral quando plantações inteiras de batatas foram arrasadas por ocasião da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Um período de fome se estabeleceu quando havia poucas batatas para alimentar uma população já dependente delas.

Percebendo que a batata poderia ser um nutriente valioso para a população pobre da Rússia, o Czar Frederico, o Grande, chegou a impor que os pobres em seu país deveriam ser obrigados a se alimentar de batatas. Na França das cortes e das modas, a batata foi introduzida por um médico e que conhecera suas propriedades enquanto estava preso numa masmorra russa. De início, a apreciação da batata esteve por conta de altas figuras da sociedade, pois ela era servida como prato sofisticado. Aos poucos foi sendo popularizado o seu cultivo e a população também passou a se alimentar regularmente de batatas. Também foi necessário na França que uma calamidade comprovasse o quanto a população necessitava das batatas: as batalhas travadas no país sob Napoleão arrasaram as plantações, provocando fome e desabastecimento deste valioso produto agrícola.

Por volta de 1815, a batata já não era mais um complemento alimentar, mas a base alimentar primordial em toda a Europa ao ponto de ter ocorrido, agora entre 1845-1847, uma das mais profundas crises alimentares já vivida na Europa e causadora de milhões de mortes. Naquele período uma espécie de doença que afeta vegetais atacou significativa parte das plantações de batatas no continente. A resistência extraordinária da planta foi responsável por um "milagre": as próprias batatas resistiram à moléstia e passaram a produzir imunidade que as livrou deste mal e que foi responsável pela retomada intensiva de seu cultivo. As pesquisas a respeito das propriedades defensivas das batatas quanto à reação ao fungo que causava o apodrecimento das plantas foi útil para que se pudesse desenvolver um de seus outros "milagres": a penicilina, uma fantástica descoberta da medicina moderna.

O ouro que os espanhóis carregaram dos indígenas enriqueceu uns poucos europeus, ao passo em que as batatas tornaram-se grandes agentes no combate à fome na Europa. Este fato levanta a questão a respeito dos tesouros encontrados nas Américas, pois há argumentos que garantem que a grande descoberta feita nos Andes não foi o ouro encontrado por Pizarro, mas as batatas apreciadas por seu cozinheiro.

Se batatas e milho foram dois dos grandes “achados” americanos, além de outras tantas preciosidades naturais, como a borracha da seringueira brasileira que enriqueceu ingleses, o que há de ser dito quanto a muitos potenciais tesouros que se escondem nas matas amazônicas? Os biopiratas não são exploradores necessariamente interessados em difundir as miraculosas propriedades das plantas e substâncias naturais que vasculham, não estão movidos pelo mesmo senso bem intencionado do cozinheiro espanhol do século XVI, estão a serviço de poderosos impérios da indústria química e farmacológica que poderão patentear e negociar fortunas a partir do que se pode encontrar no infindável estoque amazônico. As discussões a respeito do processo de destruição da Floresta Amazônica envolvem tanto legítimos argumentos preservacionistas e ambientais, como ainda intenções obscuras de estabelecer alguma espécie de “tutela” imposta por iluminados grupos internacionais interessados na biodiversidade amazônica. É quanto a estes últimos que precisamos tomar cuidado, pois por trás de propostas como a internacionalização da Amazônia pode haver muitas outras coisas que podem ser tudo, menos altruísmo ambiental.

Certos benefícios que a natureza proporciona à humanidade e que a ciência pode potencializar não são meros produtos a ser explorados das maneiras mais mesquinhas. A quebra de patentes, no Brasil, dos itens que compõem o coquetel de medicamentos para o tratamento de portadores do HIV foi uma medida de confronto à inflexibilidade da indústria farmacêutica mais interessada em cifras do que propriamente no bem-estar das mais variadas pessoas infectadas. Este tipo de postura tomada pelas corporações que vendem curas salienta o quanto o controle sobre determinadas substâncias e compostos poderá ser restrito e, em conseqüência, o quanto poderemos ser dependentes destas companhias. A biopirataria é um efeito do ganancioso processo de controle exercido pela indústria farmacêutica e pela nova ciência da exploração. Cabe-nos investir em pesquisas autônomas e socialmente comprometidas quanto a todas as potencialidades que podemos extrair de nossa biodiversidade. Claro que parceiros internacionais poderão atuar nesta brigada, mas o compromisso precisa ser bem entendido: precisamos encontrar novas batatas e não mais ouro de tolo.

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