Muros e impérios - Roma, Império Romano, Estados Unidos e Império Americano < Duplipensar.net
 

 



Paulo Alexandre Filho - Publicado em 19.03.2004

Comparações históricas costumam ser artificiais, incoerentes e tendem para a imprecisão, mas são irresistíveis. Caindo na tentação de fazer tais comparações, vamos tomar como exemplo e experiência histórica o que ocorreu à poderosa Esparta no século VII a.C. e traçar nossa analogia forçada.

A poderosa polis grega passou a viver uma grande crise de regressão cultural
  11 de setembro de 1973
 


 

caracterizada pelo laconismo, que limitava a capacidade de raciocínio e o senso crítico de seus cidadãos (não colocamos em questão o conceito de cidadania em Esparta), e também vivenciava uma fase marcada por sua postura completamente desfavorável aos elementos e pessoas vindas de fora, através da xenofobia (temor aos estrangeiros) e da xenelasia (reação e expulsão aos estrangeiros). O processo de expansionismo espartano cedeu lugar a uma política de intervenção e influência no Peloponeso (área peninsular da Grécia) para assegurar sua hegemonia na região. O fim da expansão ainda arrastou Esparta a uma recessão econômica e uma crise social que influenciaram o clima de estagnação e imobilismo político, responsáveis pela adoção de posturas conservadoras e anti-progressistas.

Roma também experimentava um momento de estagnação, quando o estrangeiro, este mal terrível, foi penetrando suas fronteiras no decorrer dos anos em que o Império dava grandes demonstrações de fragilidade. As instabilidades que se verificavam no decadente Império Romano foram responsáveis por graves mudanças tanto na organização política e social, como em sua estrutura econômica. Ainda assim, Roma também tentava impor e administrar sua hegemonia, mas sua grandiosidade não impediu que o líder germano Odoacro arrancasse o derradeiro César, Rômulo Augústulo, de seu trono. O império caiu e o mundo ocidental mudou.

O Império Romano e sua queda costumam ser evocados pelos anti-americanos como exemplo histórico de que os grandes impérios tombam. Eles apelam para este exemplo e esperam pela queda dos EUA. Observam os sinais e as coincidências históricas na esperança de que o fim esteja próximo, embora saibamos que os impérios não caiam de uma hora para outra. Talvez os EUA estejam vivendo um período espartano ou ainda tenham experimentado atualmente um temor quanto as incursões bárbaras contra seu poder, já que os bárbaros do Terceiro Mundo estão sendo cada vez mais rebeldes. Tudo pode ser mero alarme falso, mas os EUA estão sendo mais ameaçados nos últimos anos. Especialistas apontam que países em ascensão (como Índia, China, a Rússia ou mesmo o Brasil) podem ter bastante representatividade internacional num futuro nem tão distante e este indício implica numa fragmentação da influência norte-americana – os EUA eram uma promessa futurista quando o Império Britânico controlava boa parte do mundo, mas uma promessa que se cumpriu. Ao mesmo tempo, a União Européia vem conseguindo impor uma relativa autonomia, embora dentro de alguns limites e diferenças políticas e econômicas entre alguns dos Estados que a compõe, fato que contribui para que a esfera de influência norte-americana no mundo seja reduzida, ou seja, o espaço para o exercício da hegemonia dos EUA tem diminuído cada vez mais.

O episódio da invasão os Iraque indica o quanto a diplomacia do terror praticada pelo Tio Sam tem sido questionada, pois desta vez tradicionais aliados lideraram o bloco dos descontentes com a medida – contrária à ONU – de atacar o país que fora liderado pelo ditador Saddam Hussein. O perigoso discurso de George W. Bush em defesa da ampliação dos gastos militares (que ele chama de “gastos em defesa”, embora normalmente sejam efetivados como investimentos em ataques a adversários militarmente em desvantagem), pode alimentar o temor de que certo desespero chegou à Casa Branca, afinal, o alto comando da política direitista ianque não é cego.

O temor de que alguma desgraça recaia sobre os impérios se faz acompanhar pela precaução quanto ao que se passa fora das muralhas que os protegem e as polis gregas, Roma, os impérios e organizações políticas antigas utilizavam fortificações para estabelecer seu distanciamento dos inimigos estrangeiros. A engenharia e a arquitetura que desenvolvemos ao longo dos tempos acompanharam nossa vocação para o temor e aversão aos elementos estranhos a nosso meio. A habilidade na construção de muros reflete nossa capacidade divisionista. Muros separam, protegem ou agridem dependendo de seu uso estratégico. A Guerra Fria ergueu o famigerado Muro de Berlim, dividindo a Alemanha e simbolizando uma divisão ainda maior: polarizou o mundo entre o capitalismo e o socialismo. O bloco socialista, sob a liderança da ilusória União Soviética, entrou em colapso e, conseqüentemente, o Muro de Berlim foi derrubado sob festa e sob o alarde de que a liberdade (segundo o entendimento do bloco “vitorioso”) impôs uma grande e decisiva derrota ao atraso comunista.

A nova ordem instituída pela derrocada da União Soviética, contudo, somente deixou claro que os planos de hegemonia que desde a Doutrina Truman haviam sido delineados pelos EUA pareciam assumir contornos mais evidentes e efetivamente não se pode dizer que a hegemonia norte-americana tenha colaborado para a construção de um mundo melhor. Se a Guerra Fria já não existe, em seu lugar foi erguida uma nova natureza de tensão. A divisão estabelecida é entre os EUA - aliados a um punhado de Estados colaboradores - e o restante do mundo. O Muro de Berlim caiu, mas foi substituído por outro. Nos limites da "Terra da Liberdade" foi erguida uma cerca eletrificada que é ostensivamente vigiada por homens, cães e tecnologia infra-vermelha. A tal cerca que separa os EUA do México, obra-prima da segregação, cumpre em termos práticos um objetivo que não difere muito do Muro de Berlim. A muralha norte-americana também serve para dividir: divide o mundo rico do mundo pobre, mantendo o El Dourado capitalista protegido do refugo que o próprio sistema produz, impedindo que os bárbaros terceiromundistas poluam os EUA, nação que fora construída por mãos de renegados e excluídos.

Os ataques ao WTC acentuaram a vigilância xenofóbica e a desconfiança prepotente sobre estrangeiros "suspeitos" nos EUA. Todos passaram a ser potenciais terroristas e pretensos criminosos. As regras ditadas para o ingresso de estrangeiros no país refletem esta postura. A muralha americana tomou uma dimensão aérea, inovação impressionante na atual engenharia geopolítica. O controle sobre os vôos que cruzam o país e a vigilância sobre os estrangeiros de procedência suspeita são medidas nitidamente abusivas. É algo espartano, sem dúvida, e reflete o atual estado de nervos que tem tomado conta do país, mas este nervosismo é disseminado pelo próprio governo ao adotar este tipo de medida. Bush tem sido terrorista com seu próprio povo.

O muro que separa os EUA do mundo bárbaro, infelizmente, não contém dentro de seus limites as intenções sanguinárias e prepotentes dos Falcões, que voam sobre o muro e sobre todos aqueles que os desagradam. Os construtores de muros também possuem a perícia de serem primorosos construtores de sarcófagos para seus adversários.

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