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¿Nike, Qué passa?
Quando idéias aliam-se para dominar o pensamento coletivo
Artigo de Eric Mantoani e Bruno Reinoldes - Publicado em 05.04.2004
Ninguém duvida do poder do futebol enquanto arma de dominação de massas. E sabendo bem disso a Nike vem se firmando desde a década de 90 como uma das principais dominadoras do inconsciente coletivo, lançando seus comerciais que apelam à dinâmica e à emoção para difundir a idéia de uma “atitude Nike”, onde garotos suburbanos tornam-se fenômenos apenas tomando esta atitude. Just do it.
A partir de então a Nike deixou de ser uma mera fábrica de tênis ou de material esportivo para fabricar sua idéia gravar sua marca no pensamento coletivo.
Hoje começou a circular na televisão brasileira um comercial que é a pura demonstração da padronização – e logo anulação da individualidade – dos ídolos em torno da atitude que a empresa estadunidense pretende divulgar.
Trata-se de um jogo entre as seleções de Portugal e Brasil, em que as duas equipes encontram-se no túnel de acesso ao gramado, com seus uniformes oficiais – rigorosamente idênticos, à simples exceção das cores das bandeiras de cada país.
Antes de entrarem no gramado, o atacante português Luís Figo provoca o brasileiro Ronaldo, e dá-lhe um drible jogando a bola por entre as pernas.
A partir daí começa aquela “pelada” entre os jogadores das duas seleções, um revidando o drible anterior do outro, sempre destacando as estrelas patrocinadas pela empresa: do lado brasileiro Ronaldo, Roberto Carlos, Ronaldinho e Denílson; do lado português Luís Figo e Cristiano Ronaldo.
A dinâmica, a emoção e o toque de humor já são características bem conhecidas das propagandas da NikeFootball, e também estão presentes no mais novo lançamento da campanha, mas a peculiaridade dessa vez é aliar a “idéia Nike” que já está digerida pelos consumidores de todo mundo, ao conceito estadunidense de que os países atrasados do mundo têm todos a mesma característica, nesse comercial representado pelo idioma espanhol que falam o atacante português Luís Figo e o lateral brasileiro Roberto Carlos.
Ainda que releve-se o detalhe de os gritos de “Olé” da torcida serem bradados ao sotaque espanhol (“Olê”), num breve diálogo o português pergunta ao brasileiro: “¿Qué passa?”
Se a língua materna dos dois países é o português, por que ‘raios’ os jogadores comunicam-se em espanhol?
Agora a Nike além de divulgar sua atitude, se presta a divulgar o fim das identidades nacionais dos dois países (um latino-americano, e outro europeu pobre), colocando nessa grande campanha seus maiores ídolos a comunicarem-se no idioma oficial de um país aliado à Bush na ofensiva contra o Iraque, e dos países latino-americanos que fariam parte da ALCA dos sonhos do tio Sam.
O comercial começou a circular hoje e amanhã os moleques estarão gritando “olê” ao completar seus dribles no futebol de rua, assim como as crianças de outrora perguntavam “tomou?” parafraseando os hoje falidos mamíferos da Parmalat. E assim estaremos a partir de amanhã, brasileiros e portugueses, mais sucetíveis à dominação das grandes marcas, mais enfraquecidos em nossas culturas, e mais reféns das atitudes e idéias impostas pelas poderosas instituições capitalistas.
Veja o o comercial da Nike com o Ronaldinho - Nike Brasil.
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