O mercado é o nosso pastor e tudo nos faltará - A crescente onda religiosa e mística que vem tomando conta da sociedade pós-moderna. < Duplipensar.net
 

 



A crescente onda religiosa e mística da sociedade pós-moderna
Ramon Torres

Tenho tido muitas dificuldades em responder muitas perguntas ultimamente, não entendo muito bem o porquê de várias das situações vividas pela sociedade ultimamente. Uma delas é a respeito da crescente onda religiosa e mística que vem tomando conta da
  Cátaros e a inquisição
 


 

sociedade pós-moderna. Como isso não tem afetado a vida das pessoas e, diferente do que todas as correntes religiosas e místicas pregam, as vidas não tem sido transformadas - pelo menos a ponto de isso ser visível. Estamos cada vez mais longe uns dos outros com problemas e famílias destruídas.

Vamos voltar no tempo e relembrar as profundas transformações que nos afetam hoje. Na época da renascença, descoberta das Américas, passagem da Era Medieval, feudal e entrada do capitalismo quem mandava é a Igreja. Tudo é Deus e isto é comprovadamente ruim para todos, inclusive para muitos estudiosos que chamam esse período de Idade das Trevas. Nesta época, os camponeses não compravam adubos e sim água benta para pedir que Deus abençoasse as suas terras. O místico estava presente em cada lugar, cada esquina.

As coisas começaram a mudar e de repente aparecem obras como "A criação de Adão" de Michelangelo, mostrando um homem forte e desnudo atraído a terra e um Deus velho e longe. As coisas estavam mudando.

Surgem pessoas como Halley, Copérnico, Galileu e Newton, que fazem cálculos e traçam rotas de cometas. Eles fazem proezas e descobrem que o mundo é redondo, que a Terra não é o centro do universo, que misturando certos elementos naturais se tem o adubo e que não é necessário comprar água benta e sim um adubo (o camponês continuava gastando seu dinheiro). Percebe-se que Deus não é tão fundamental. Afinal, veio a luz sobre o homem e ele não precisa de Deus. A ciência começava a avançar rapidamente, "Deus esta morto!", "Penso logo existo". Sim, o homem estava livre da perversa Igreja, entrou em cena o ateísmo e agnosticismo (já existiam, mas viram moda).

O que os renascentistas e iluministas não imaginavam é que o homem não conseguiria viver sem um deus. O tempo passa e mesmo na era das razões as guerras continuam, só que o homem vai se reduzindo cada vez mais. Estava lendo um livro recentemente onde o autor, Frei Beto, dá exemplos que valem a pena ser lidos:

"Hoje a palavra é Modernizar enquanto antigamente a palavra era desenvolver (alguém aí lembra de certo JK, que ia desenvolver 50 anos em cinco?), só que modernizar tira o homem do contexto. Essa palavra tem uma conotação tecnológica."

Antigamente se falava em emprego ou vocação, agora é trabalho ou estar no mercado. Pois bem vamos entrar no objetivo do texto. Antigamente, na era das trevas, as regras eram ditadas pela Igreja e teoricamente por Deus. Fomos libertados e eis que temos um Deus ditando as coisas de novo.

O mercado é o deus moderno, sim, antigamente nosso avós liam a Bíblia para consultar as grandes crises, depois nossos pais, o serviço meteorológico e hoje somos obrigados a consultar o senhor Mercado, para saber se ele está calmo, alegre, eufórico, tenso, nervoso e por aí vai. Qualquer acontecimento somos obrigados a ouvir: "Vamos ver como o mercado reage".

Olha só o que nosso amigo mercado nos faz hoje. Precisamos estar no mercado, tudo gira em torno dele. O mercado consumidor brasileiro é composto por uma minoria e a publicidade investe pesado em cima dessa minoria, causando o desejo da maioria e frustração por que não se pode entrar adquirir os produtos anunciados.

O mercado, o Deus da razão e do pós-modernismo, está parecendo ser muito pior do que o Deus da Idade Média porque é internacional, globalizado, move-se segundo suas próprias regras, e não segundo as necessidades humanas.

Isso gera uma tremenda crise nas pessoas. Afinal, a razão também não consegue suprir necessidade nenhuma e chegamos no nosso momento atual. Igrejas lotadas e isso prova que o ser humano não consegue viver sem algo para seguir.

Só que o que encontramos nas igrejas atualmente é uma mensagem formada para pessoas nos tempos modernos, e por incrível que pareça essa mensagem se torna idêntica ao do século XVI: pague que Deus o Abençoa...

O que será que veremos a seguir? Uma nova reforma nas igrejas em plena era da razão? Termino com uma frase do frei Beto:

"Não vivemos uma época de mudanças e sim uma mudança de época"

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