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Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption)
Vinícius Simões - Publicado em 02.05.2004
Aparentemente tanto no filme quanto no livro, a reabilitação do indivíduo está em segundo plano. Os planos diferentes de privação da liberdade, descritos no livro e mostrados no filme na verdade são apenas fachada para a segregação que é feita pela sociedade. E isso é demonstrado nas constantes avaliações de Red, um homem por demais humano, sem nenhum grande vício, já arrependido de seus crimes, mas que é repetidamente reprovado na avaliação da junta condicional.
I know what you think it means, sonny.
To me it's just a made-up word.
A politician's word so that...
...young fellas like yourself can wear a suit and a tie...
...and have a job.
What do you really want to know?
O criminoso era visto como uma anormalidade. Como um cidadão anômalo, ele teria paradoxalmente quebrado as regras do contrato social que aceitou, sujeitando-se então às suas sanções. Nos primeiros tempos a lei era vista como uma extensão do soberano, como seu braço, por exemplo, então o crime era visto como uma agressão direta ao soberano. Por isso deveria ser punido exemplarmente.
Este é apenas um aspecto paralelo de ambos, um de vários. Outro deveras importante é o sistema que permeava a tentativa que a sociedade fazia de reabilitar o indivíduo. Este sistema era calcado na tríade disciplina, trabalho e fé. Através da disciplina a sociedade acreditava estar despertando no homem bons hábitos, hábitos necessários para fazê-lo despertar o gosto pelo trabalho. Por que se o homem agredia a sociedade só podia ser em razão dos seus hábitos nocivos, hábitos despertados pelo amor ao descanso, pela perniciosidade comum apenas às mentes ociosas. Por essa razão o trabalho era tão importante. Portanto a prisão era vista pela sociedade como uma “Fábrica de Hábitos”, um “Centro de Reabilitação”.
A disciplina seria portanto o meio de se fabricá-los. Desde que o indivíduo se mantivesse ocupado, com tarefas diárias, para lhe privar do ócio, dificilmente este trilharia a senda errada, compreensível apenas nos casos de delinqüência deliberada causada pela desocupação. Por mais simplista que seja, por mais que ignorasse as questões sociais, era este o pensamento da época. E, diga-se de passagem, ética semelhante, segundo Max Weber fundamentaria o espírito do capitalismo: ética cristã, só que nesse último caso, protestante. Ambas as éticas valorizavam o trabalho como meio de se alcançar a graça de Deus, e por conseqüência, alcançar a salvação.
Infelizmente nada disso funcionava como deveria. A privação da liberdade na verdade estava bem longe de cumprir o que se esperava dela. A questão da sobrevivência na prisão obrigava as pessoas a desenvolverem funções que o sistema reprovaria.
The funny thing is...
...on the outside, I was an honest man, straight as an arrow.
I had to come to prison to be a crook.
Além disso, a privação constante da liberdade alienava o homem, tornava o incapaz de sobreviver na sociedade que com o tempo ia cada vez mais se tornando alheia a ele, depois de um certo tempo ele acabava se tornando dependente dela, pois é através dela que sua vida girou por tanto tempo, como o personagem Brooks.
But I tell you these walls are funny.
First you hate them.
Then you get used to them.
Enough time passes...
...you get so you depend on them.
Trabalho, o legado de Deus ao Homem por culpa do pecado original, a sua sina, a sua obrigação. Não sem motivo as instituições em formação eram estritamente dependentes do discurso que as validavam. Foucault analisou isso em “O Nascimento da Clínica” mas o “Vigiar e Punir” tem muito mais a ver com o “História da Loucura”. O preso também nasceu naquela massa indistinta criada pela mente pretensamente puritana. Nessa massa indistinta estavam presentes os loucos, aqueles que queriam se desfazer e todos os outros “pervertidos”. Essa distinção por mais indistinta que nos possa parecer, à época era facilmente reconhecível, era uma questão bastante definida para um espírito da época. Práticas determinadas eram consideradas perniciosas (algumas vezes até sem discussão), e portanto passíveis de serem julgadas.
Como por culpa do pecado o homem foi obrigado a ter que arrancar a comida da terra ao custo do próprio suor, tentar retornar ao estado original sem o merecê-lo, a esse estado de pureza que o homem perdeu com o pecado e que se espera reaver pela obra, por si só já é uma abominação. Por isso se condena a ociosidade como crime, mas não só como crime como também como causa da maior parte deles. Ócio, o grande vício.
Como é através do trabalho que a sociedade define a função do indivíduo, e por causa da função enobrecedora que esta creditava ao trabalho, era através deste então que se buscava a reabilitação do indivíduo. Isso está explicito no filme nas várias vezes que se encontrava os presos em campos ora impermeabilizando tetos, ora arando a terra. O Trabalho estava presente em Shawshank, como parte do “Programa de Reabilitação”.
A terceira questão é a religião (ou Fé):
I believe in two things: Discipline and the Bible.
Here, you'll receive both.
Put your trust in the Lord.
Your ass belongs to me .
Welcome to Shawshank.
Nessa passagem nota-se portanto a questão mais fundamental de todas, a crença que permeia a criação da prisão como instituição, a crença religiosa. Esta crença está implícita senão em todos, pelo menos na maior parte do discurso do direito da época e era por conseguinte a questão sublime através da qual esperava-se que o preso fosse reabilitado. Provavelmente desde o Império Romano a máquina tinha essa mania de fundamentar suas ações na religião, mas de qualquer maneira nessa época, era evidente que ela estava presente em muitas das suas instituições. E não à toa, a própria filosofia, as ciências e por conseqüência o direito (outra herança romana) eram influenciados por isso.
Outra questão paralela, mas não menos importante era a punição. A punição era a afirmação máxima da lei, a sua garantia. Por isso mesmo a encontramos presente na maior parte do filme, como quando no começo do filme um homem é agredido até a morte. As agressões tinham que ser públicas, e tinham que fazer crer àquele que apanha ser um mal negócio cometer um crime, em face dos seus benefícios. Antigamente isso estava implícito no corpo do condenado, através das suas chagas, dos seus hematomas. O corpo agredido afirmava o poder, que por sua vez se regenerava. O filme apresentava isso várias vezes. O bom funcionamento da lei partia da certeza da punição, e isso dependia de uma minuciosidade praticamente perfeita no esquema de julgamento: balança e espada.
Em face disso Stephen King nos leva a crer que a única maneira de sobrevivermos a tudo isso, a todas essas coisas que de uma maneira ou de outra buscam desumanizar o homem, é mantendo acesa e viva a chama da esperança.
Filme: Um Sonho de Liberdade
Título original: The Shawshank Redemption
Pais: EUA
Idioma: Inglês
Ano: 1994
Direção: Frank Darabont
Roteiro: Frank Darabont e Stephen King
Elenco: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, William Sadler, Clancy Brown, Gil Bellows, Mark Rolston, James Whitmore, entre outros.
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