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As imagens do Brasil
Grazielle Albuquerque - Publicado em 19.06.2004
"A Elaboração de um imaginário é parte integrante da
legitimação de qualquer regime político. É por meio do
imaginário que se podem atingir não só a cabeça, mas
de modo especial, o coração, isto é, as aspirações, os
medos e as esperanças de um povo."
José Murilo de Carvalho
É fácil nos depararmos com os símbolos norte
americanos pelas ruas da cidade. A moda ostenta
"buttons" vermelhos e azuis, "t-shirts" com a bandeira
dos Estados Unidos e outros apetrechos importados
pelos que querem estar "in", ou melhor, no padrão.
Mais do que um raciocínio linear pode nos mostrar,
essa ânsia e ostentamento dos elementos nacionais
demonstram não só a fragilidade dos ícones brasileiros
como a possibilidade real de se construir um ideário
popular.
Cabe-nos aqui perguntar: Qual o grande herói nacional?
Será que passamos por uma Revolução Burguesa? Qual o
grande símbolo nacional? A maioria das respostas nos
remontam a símbolos criados por uma elite ou pela
"pequena e estreita" via da reconstrução popular.
Basta olharmos para a nossa história com um pouco mais
de atenção para vermos um Brasil surgido de idéias
estrangeiras, algo como uma campanha publicitária
colonial.
Em um país onde o Estado (a Coroa portuguesa) veio
antes da sociedade (a idéia de povo ligado por uma
mesma origem) era preciso se forjar um passado e dar
vida a uma idéia de futuro comum. O período imperial
foi realmente soberano nessa "fabricação" dos
elementos nacionais. O Brasil transformou-se no
peculiar "Império Tropical". Tínhamos uma pompa
importada de Portugal e, por vezes, inventada que
colocava o imperador na distância certa para ser
admirado, mas próximo o suficiente para vermos nele
alguma identificação.
De repente, nosso jovem Dom Pedro II tinha barbas que
demonstravam uma serenidade necessária a uma imagem
oposta ao impetuoso D. Pedro I. Éramos cercados por um
nobiliário tupiniquim, ganhavam vida o "Barão de
Tararé", o "Visconde de Rio Branco" e outros com
títulos ligados a nomes naturais e indígenas. Também
eram comuns luxuosos mantos com folhas de tabaco e
café (típicos produtos brasileiros). O índio logo
ganha as feições de um cavaleiro medieval e é
personificado como o grande símbolo da pureza
nacional: o personagem Peri, de José de Alencar, nada
mais é do que um garoto-propaganda da imagem que se
quer vender do Brasil.
Mas não pensem que tudo isto foi colocado
impositivamente de cima para baixo. A grande
demonstração de inteligência nessa campanha
publicitária foi achar pontos de identificação entre
as idéias que se queria propagar e os elementos
próprios das camadas populares. Talvez o maior exemplo
dessa linha de ação seja o sincretismo religioso, aqui
a Igreja Católica dividiu seus rituais com as práticas
africanas, isto, antes de dividir, agregou forças em
uma manifestação religiosa multifacetada.
Toda essa "salada-mista" de ícones brasileiros durante
o Império mostrou sua eficiência. Até hoje os símbolos
desse período prevalecem sobre os da República: o hino
nacional foi composto por encomenda de Dom Pedro I; na
bandeira permanecem as cores e as formas do período
imperial, apenas trocamos as armas pela frase
positivista "Ordem e Progresso", o herói da república
teve que ser Tiradentes porque o Marechal Deodoro da
Fonseca era fisicamente muito parecido com Dom Pedro
II; ou para usar um argumento popular alguém aqui já
viu o "Presidente da Peixada"? Não! No Brasil, ainda
hoje permanece o elã imperial que vai dos restaurantes
com o nome "O Rei da Peixada" até figuras públicas que
se tornaram o "Rei do Futebol", a "Rainha dos
baixinhos" e etc.
Se a eficiência da campanha imperial é o ponto
positivo dessa questão, vale ressaltar os negativos:
não passamos por nenhuma revolução que nos desse a
conquista de nossos direitos (a maioria foram
adquiridos por concessão), nosso grande herói da
Inconfidência Mineira foi fabricado e os nossos
grandes símbolos nacionais demonstram uma adaptação de
ícones estrangeiros e elitistas ao cotidiano popular.
Ainda bem que cultura é um terreno movediço e hoje o
futebol inglês de Charles Müller é um sonho mestiço
consumido nas TVs a cabo, os restos de comida do
Engenho viraram a "feijoada chic" dos restaurantes aos
domingos e o samba e a mulata ainda são o grande
estereótipo nacional a despeito do garoto-propaganda
indígena. Ou seja, nem mesmo toda competência na
fabricação e difusão de imagens não conseguiu vencer
os filtros de uma formação multicultural. É pena, que
nem o futebol, a feijoada ou o samba nos façam usar
botões ou camisetas com a bandeira brasileira.
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