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A morte de Leonel Brizola e o "esquecimento" do Proconsult
Oswaldo Portella - Publicado em 27.06.2004
"Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranqüilizante após um dia de trabalho."
Emílio Garrastazu Médici
A felicidade de Emílio Garrastazu Médici, enquanto ocupava a presidência da República do Brasil, estava assegurada no monopólio da verdade. Seu dia de trabalho todos nós sabemos em que consistia e em que resultou. E a tranquilidade de que gozava, infelizmente, não era compartilhada pelos seus compatriotas. Entre os brasileiros inquietos e assustados, durante a ditadura militar implantada violentamente no país, estava Leonel de Moura Brizola.
Exilado desde 1964, Brizola só retornaria ao país no final do processo de abertura política iniciado por Ernesto Geisel e continuado por João Figueiredo. O abismo social, a estagnação econômica e o isolamento político do Brasil no cenário global não permitiam outra escolha à junta militar além da transferência de poder aos civis e a consolidação de um modelo democrático que atendesse as demandas dos investidores estrangeiros. Era preciso estabilizar o país e criar condições para desenvolver um mercado consumidor nacional capaz de absorver produtos estrangeiros mais sofisticados. O american way of life não está completo sem fantoches dóceis e com alguma possibilidade de consumo.
A intenção de Geisel ao promover a abertura de forma lenta e gradual era clara. Ele acreditava, acertadamente, que as bases para manipular a população já estavam devidamente implantadas. Além de alienar seus maiores adversários (seja exilando-os ou assassinando-os), os militares haviam consolidado a hegemonia das Organizações Globo. O sonho de controlar corações e mentes, unificando um país de dimensões continentais e garantindo que suas versões atingissem todos os brasileiros já estava assegurado graças ao compromisso e a fidelidade que o grupo mantinha com a elite nacional. Controlando os quatro poderes que regiam a vida de cada brasileiro a abertura seguia conforme sua programação.
O regresso de Brizola ao país em 1979 adicionou ao cenário político uma variável que não fazia parte do cronograma militar. Figura ativa da resistência ao Golpe de 1964, que culminou na renúncia e no exilío do presidente João Goulard, Brizola retornará ao país para prosseguir com a ambição de Goulard de tornar o Brasil uma nação realmente independente e democrática em seu sentido mais amplo. Para tanto, criou um partido e fixou-se na antiga capital do Estado da Guanabara, a cidade do Rio de Janeiro - o cenário de maior visibilidade nacional daquela época. Brizola era uma ameaça não apenas pelos seus ideais, mas muito por conta de sua figura. Ele era uma liderança verdadeiramente popular, que com seu carisma e discursos inflamados tornava o jogo político ariscado.
Em março de 1982, Brizola lançou-se candidato ao governo do Rio de Janeiro tendo como adversário um inexpressivo candidato do governo militar, Wellington Moreira Franco, cuja biografia política, até então, se resumia a prefeitura de uma cidade de interior. A campanha eleitoral seguiu o habitual: promesas, propostas e um estudo do cárater de cada candidato por seu oponente. As pesquisas de opinião revelavam a preferência avassaladora da população por Leonal Brizola. Optar por Brizola era acima de tudo enviar um recado ao centro do poder: Não queremos mais vocês aqui.
Com o objetivo de tentar impedir a eleição de um nêmesis declarado ao seu projeto de poder, os militares introduziram o sistema de contagem informatizado nas eleições. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio passaria a contar com o "apoio" e o "suporte"de uma firma especializada na contagem eletrônica de votos, a Proconsult. A eleição seguiria normalmente através de cédulas, tendo a conferência de votos de cada urna contabilizados pelos computadores da empresa. O que se assistiu a seguir durante três dias de apuração entrou para história como "O Escândalo Proconsult".
A divulgação dos resultados da eleição de 1982 no Estado do Rio de Janeiro foi lenta e tendenciosa. Embora os resultados de boca de urna apontassem uma vitória folgada de Leonel Brizola, a Rede Globo e a Rádio Globo transmitiam dados apurados pela Proconsult em urnas localizadas no interior do Estado. O objetivo era plantar na mente da população a idéia de que Moreira Franco seria o vitorioso, já que todas os resultados divulgados colaboravam para isto. Entretanto, o plano não saiu como esparado. A população revoltada hostiliza os veículos e funcionários do grupo, frases de ordem como "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo" eram entoados por milhares de eleitores que se sentiam lesados. O próprio Leonel Brizola procurou o TRE para apurar o que estava acontecendo. Temendo o iminente golpe que estava se desenhando contra si, convocou a imprensa internacional e expoes a conspiração que usava a influência e o poder da Globo para usurpar-lhe o governo de um dos mais importantes estados do país.
O golpe fracassará. Os computadores da Proconsult não eram rápidos o suficiente para maquiar os resultados com a velocidade com que a população ansiava pelos resultados, o que permitou a Brizola tempo de oferecer uma denúncia e mobilizar seus partidários contra um falso resultado. O episódio marcou a história de Brizola e das Organizações Globo. Embora reconhecido como vitorioso e empossado como Governador em 15/11/82, o relacionamento entre ambos foi de atrito e hostilidade pública. Brizola foi massacrado diariamente pela imprensa, todas as suas realizações e projetos eram sistematicamente contestados e combatidos. O único espaço na mídia que lhe era favorável era a coluna "O Ovo da Serpente", em que o próprio Brizola comprava para defender seus atos e atacar a nada edificante história das Organizações Globo.
Passada uma semana da morte de Leonel de Moura Brizola é curioso observar como a Organização Globo veiculou sua passagem. Burocraticamente. Mas os eventos não deixam passar uma irônia curiosa ao observador mais atento. A cobertura da morte de Brizola pela mídia, em geral, fora infinitamente superior a dedicada à Roberto Irineu Marinho.
Devemos evitar que este evento fique restrito ao Buraco da Memória. Hoje, com urnas eletrônicas e a impossibilidade de uma apuração real é quase certa a repetição de golpes semelhantes. Devemos, também, impedir que a história fique apenas no registro parcial da mídia. Quem controla o passado, controla o futuro.
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