| |
|
|
Inimigo público número 1 A história dos inimigos públicos de Guy Fawkes a Slobodan Milosevic
Leonardo Silvino - Publicado em março de 2002
Seis meses após o atentado que definiu o início do novo século, ainda não foi encontrado Osama bin Laden. O ex-inimigo público do ocidente está virando impessoa. O motivo é simples: sempre que seu nome for mencionado o risco de toda a operação "Liberdade Duradoura" ser associada ao fracasso é considerável. "Quero bin Laden vivo ou morto.", declarou Bush seis dias após o atentado. Se bin Laden está vivo ou morto não importa mais. Ele virou impessoa.
O Afeganistão pós-Taleban vive agora uma reconstrução nacional pelo presidente Hamid Kazai, considerado o homem mais elegante do mundo. Apesar da 'democracia' ter chegado ao país, os bombardeios da força da paz continuam para desinfetar a resistência Taleban. Enquanto isso, o posto de inimigo público de Osama vai sendo trocado por um suposto líder do Eixo do Mal, Saddam Hussein. No fim de janeiro, o comando do exército americano declarou que a prioridade não era mais encontrar Osama e sim impedir ataques terroristas derrubando os governos que financiam o terror.
Saddam é o homem ideal para representar um eixo inexistente, pois Coréia do Norte, Iraque, Irã e China sequer têm um pacto como o Eixo de Hitler e o Império do Mal das repúblicas soviéticas. Hussein está no imaginário popular como um homem mau. Se ele habita o inferno inclusive no desenho South Park porque não estaria associado ao mal para a maioria dos cidadãos do Ocidente sem muito questionamento.
Nesse novo século a busca por um inimigo é fundamental. As pátrias não são mais um fator de referência desde o fim da Guerra Fria. A população precisa da personificação do inimigo.
Guerra é paz. O fim das guerras é impensável dentro do mecanismo que vivemos. O estado permanente de guerra ajuda os cidadãos a ter um sentido para as suas existências e um nível de vida beirando o limite do suportável. A possibilidade de guerra afasta o questionamento e direciona toda a raiva para fora do Estado. Para isso é preciso um inimigo. Aquele que todos os erros serão creditados. No livro 1984, era Goldenstein; em "A Revolucão dos Bichos", era Bola-de-Neve. Na nossa ficção, de tempos em tempos precisamos renovar os inimigos. Do mesmo modo que Hitler personificava o mal para o resto do mundo, os judeus eram a encarnação do demônio para os alemães. Os aparelhos de propaganda de ambos os lados massificavam o perigo que cada inimigo poderia causar e os responsabilizava pela miséria e pelos erros administrativos. "O mosquito da dengue está cada vez mais forte", avisa o jornal. Cada país tem o inimigo que merece.
O mundo ocidental temia os "Ursos Vermelhos" depois de a Segunda Guerra. Stalin, Fidel e Kruschev representavam o perigo. No fim da Guerra Fria, Gorbachev já não podia representar esse papel. Precisava-se de um inimigo e Moammar Kadafi era o ideal. Tudo o que foi feito na Líbia em seu governo foi desconsiderado. Era preciso bombardear o país com o pretexto de eliminar o mal. Foi assim com Osama, Milosevic, Saddam e Kadafi em ordem de sucessão do posto de inimigo número 1. O alvo agora volta-se para o ainda presidente iraquiano (assim como o presidente da Líbia, ele está em stand-by para ocupar o cargo). Ariel Sharon estaria nesse grupo se fosse palestino.
A busca pelo inimigo não é nova. No dia 5 de novembro é comemorada em toda a Grã-Bretanha a morte de seu maior traidor. Guy Fawkes. Em 1605, Fawkes e seus seguidores tentaram explodir o parlamento.
Após a morte da rainha Elizabeth em 1603, os católicos ingleses que tinham sofrido bastante em seu governo esperavam que seu sucessor, James I, fosse mais tolerante com a sua religião. Como ele não foi, grupos da minoria católica se reuniram para promover atentados. Os extremistas planejavam explodir o parlamento para poder matar o rei, príncipe e os membros do parlamento anticatólicos.
Os conspiradores juntaram 36 barris de pólvora numa adega abaixo do parlamento. Contrários a morte de inocentes, alguns conspiradores passaram a avisar amigos para se afastar do parlamento no dia combinado. Uma carta desse tipo chegou ao rei que se preparou para conter o ato extremista. Guy Fawkes era o único que estava na adega quando as autoridades invadiram o local na madrugada do dia cinco. Ele foi preso, torturado e executado.
O episódio é lembrado muito no Reino Unido. A série de quadrinhos "V de vingança" tem o seu protagonista inspirado em Fawkes.
Todos os anos, os ingleses soltam fogos de artifício e jogam um "Judas" na fogueira no dia de Guy Fawkes.
Os novos judas estão em toda a parte. Slobodan Milosevic chegou ao poder de forma oportunista. Em 1987 com o comunismo decadente, Milosevic liderou protestos sérvios em Kosovo reinvidicando a sagrada região para os sérvios. Perdida a guerra contra a poderosa Otan, Molosevic se transformou num carniceiro dos Balcãs. Milosevic nunca foi santo, mas os líderes croatas, bósnios e da coalização ganharam o status de mocinhos com o resultado da guerra. Aos vencedores, tudo! Aos perdedores, a infâmia.
Leia também:
• Como vender anarquia - Janos Biro
• Caso Milosevic. A culpa é sempre do morto!
• O Processo. Uma comparação da obra-prima de Franz Kafka com o julgamento de Slobodan Milosevic - Rafael Vieira
|
|
|