Grandes poderes, Grandes responsabilidades (Homem Aranha) < Artigos < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 
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Resenha do filme Homem-Aranha

Oswaldo Portella - Publicado em 05.2002


O maior sucesso de bilheteria do cinema atualmente não é apenas uma adaptação fiel a um clássico dos quadrinhos, tão pouco é apenas uma engenhosa metáfora à puberdade. É tudo isto e, aparentemente, também uma resposta inconsciente ao estado de espírito estadunidense após o fatídico 11 de setembro passado. O "Homem-Aranha" levado as telas dos cinemas por Sam Haimi e David Koepp, é uma adaptação fiel a mitologia criada por Stan Lee e Steve Ditko. Mesmo pequenas modificações e algumas simplificações em sua narrativa original não tiram o mérito do feito.

Se as adapções anteriores de quadrinhos foram bem-sucedidas modificando a natureza das histórias, o mesmo não acontece aqui. O Homem-Aranha, filme, transporta os espectadores para um mundo ingênuo e simplista típico dos quadrinhos até a década de 60.

Acompanhamos todos os detalhes de sua origem, de como uma picada de uma aranha alterada mudou sua vida. De como as mudanças ocorridas em seu metabolismo modificaram a rotina do jovem e tímido Peter Parker, dando lugar a novo homem, com grande potencial e talentos especiais. Muito apropriadamente, toda mudança é apresentada como uma metáfora a puberdade, com direito a mudanças de comportamento e o olhar zeloso de seus parentes.

Entretanto, o mais curioso no filme não é apenas o héroi e seus dilemas. Por mais satisfatório que tenha sido a experiência de acompanhar meu personagem favorito em carne-e-osso, vivendo dilemas pelos quais já passei e com os quais tanto me identifico, o mais curioso foi acompanhar o desenvolvimentos de dois outros personagens. Norman Osborn, o milionário que se transforma no terrível Duende Verde, e J.J. Jameson, o inescrupúloso editor do Clárim Diário.

Rodado antes do atentado simultâneo que derrubou as Torres Gêmeas de Nova Iorque, parte do prédio do Capitólio e vítimou centenas de pessoas (incluíndo os passageiros de um vôo que provavelmente se dirigia a Casa Branca), o filme tem potencial para ressoar na alma do público ocidental que igualmente se sentiu vítima daqueles acontecimentos. Ainda que inconsciente, acredito que vem daí o seu enorme sucesso e aceitação. Afinal, depois de sentir as conseqüências daqueles atos terroristas seria, no mínimo, de mau gosto assistir os esforços de um herói fictício em salvar uma Nova Iorque gerada por computadores. Certamente não fui o único a pensar dessa forma, visto que os realizadores e os executivos do estúdio refizeram cenas e cortaram seqüências inteiras de modo a minimizar o repúdio da pláteia.

Agora, sem as cenas envolvendo as Torres Gêmeas, o filme se consagra como um imenso sucesso de público, crítica e com potencial comercial suficiente para justificar suas já definidas continuações. Mas o que poucas pessoas parecem ter se dado conta é que o filme, ainda com estas seqüências cortadas e diálogos adicionais constrangedores - certamente adicionados para refletir o espírito de união e patriotismo pós-11 de setembro, tem muito o que acrescentar aos órfãos de uma democracia liberal.

Todo leitor das aventuras de Peter Parker conhece bem sua filosofia de vida. "Grandes poderes trazem grandes responsabilidades". Assim como nos quadrinhos, a mensagem e a maneira trágica com que a frase é cravada na mente do personagem estão presentes no filme. Uma filosofia interessante e digna, que até bem pouco tempo poderia ser usada pelo governo do presidente estadunidense Bill Clinton, que a sua maneira procurou na política externa servir como mediador de atritos.

Já o novo governo, sob o comando de George Bush Júnior, parece mais sintonizado com as ambições do Duende Verde. Tendo a mesma força e dotado de engenhosos mecanismos, o Duende usa seus poderes para subjugar, agredir e humilhar seres inferiores. Curiosamente, vemos no filme que o Duende Verde, na verdade, Norman Osborn é um cientista patrocinado pelo exército dos EUA. Ele estaria trabalhando para criação de um supersoldado.

E como todos sabem, soldados não são preparados para períodos de paz.

Como cabe a toda narrativa, o antagonista é insano. Ele é diferente de nós, suas motivações são egóistas e ele demonstra não ter a menor empatia para com o sofrimento alheio. De outra forma, como poderiamos suportá-lo? Não podemos admitir que aqueles que nos fazem mal são como nós. Eles precisam ser loucos, precisam ser o oposto do que somos. Daí somos apresentados a um gênio científico, um multimilionário que é vítima dos efeitos colaterais da substância que lhe concebeu grandes poderes.

O Duende Verde, sua identidade criminosa, espalha o terror pela cidade em busca de mais e mais poder para si. Sua insanidade não tem limites, ele se delícia em queimar e soterrar pessoas em prédios. Soa familiar, não? Afinal, tão diferente ao estadunidense médio temos um velho milionário árabe, iqualmente insano, que teria renunciado a vida que levava para participar de uma guerra sangrenta. Ele seria um gênio terrorista. Ele poderia ser Osama Bin Laben.

Assim como o Duende, Osama foi financiado pelo exército estadunidense. Ele foi um aliado estratégico de outros tempos, até que sua ambição o teria afastado dos interesses ocidentais. Mas o paralelo não fica apenas por aqui, ambos possuem e utilizam armamento altamente tecnólogico, desenvolvidos pela maior potência militar do planeta.

Na ficção e na realidade, a mídia é um outro fator muito importante nesta equação. Portanto, voltemos nossa atenção agora a J.J. Jameson. Dono de um jornal sensacionalista e com um imenso faro para notícias, Jameson logo enxerga no Homem-Aranha uma forma de alavancar as vendas de seu diário. Manipulando a mídia, Jameson sabe que a melhor forma de controlar as pessoas é criando uma aura de terror a sua volta, de ameaça iminente. O que melhor que um inseto humano? Afinal, o mesmo artifício funcionou com todos os governos de extrema direita, seja o governo nazista que alimentou a paranóia judeu-comunista, seja a direita francesa recentemente com o fantasma dos imigrantes invasores, seja com George Bush Junior e seu império do mal. E para manter este clima, a imprensa tem um papel fundamental.

Quem controla os meios de comunicação, controla a opinião pública. Isso mesmo na fictícia aventura do Homem-Aranha, que é vendido como uma ameaça para Nova Iorque. A presença de Jameson, uma figura extremamente caricata, parece atender a essa lacuna. Principalmente neste momento, quando passado quase um ano dos atentados a imprensa dos EUA começa um mea culpa revendo sua cobertura internacional e pressiona as autoridades para que esclareça como um grupo de terroristas armados com facas foi capaz de tanto estrago, ainda mais diante dos alertas que soavam por dezenas de escritórios da Polícia Federal.

Enfim, nosso herói triunfa na ficção. Ainda que sua vitória traga imenso sofrimento. Entretanto, ele jamais questiona sua filosofia de vida, pois ele próprio sofre com as conseqüências de não a ter adotado com antecedência. Ele descobre que ter o poder para subjugar alguém não lhe dá o direito de fazê-lo. Sua vitória é um alívio para quem ainda nutre alguma esperança na humanidade. Resta saber se lição chegou aos estadunidenses a tempo, e se entre os fãs do Aranha existe um homem chamado George Bush Júnior.

Ficha Técnica do Filme Homem-Aranha:
Filme: Homem-Aranha
Título original: Spider-Man
País: EUA
Idioma: Inglês
Ano: 2002
Direção: Sam Raimi
Roteiro: David Koepp
Gênero: Ação / Fantasia
Elenco: Tobey Maguire (Homem-Aranha/Peter Parker); Willem Dafoe (Duende Verde/Norman Osborn); Kirsten Dunst (Mary Jane Watson); etc.