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Opostos, mas justapostos
Marco Scott Teixeira - Publicado em maio de 2002
Espúrias - assim foram rotuladas as prováveis coligações para a disputa do pleito presidencial, em outubro. Mas há muito mais afinidades entre as alianças do que se possa imaginar. Existe um encadeamento lógico de idéias e, principalmente, de atitudes que evidenciam a proximidade de tais conluios. Opostos, mas justapostos.
O leitor mais afoito deve estar esperando revelações bombásticas: não é isso que demonstraremos. Que fique claro apenas os porquês de uniões pouco verossímeis na superficialidade, mas com total sintonia nos obscuros meandros de nossa política.
Em primeiro lugar, de espúrias elas não têm nada. Os progenitores de tais pactos estampam as páginas de todos os periódicos nacionais. Os homens que procuram por tais conchavos são de amplo domínio público. Busquemos, entretanto, algo além dos subterfúgios oferecidos por eles.
A mais comentada de todas as alianças é a do PT com o PL. Na grande imprensa ninguém comenta, mas o grande beneficiado com ela é o PL.
Esse inexpressivo partido, casuísta e fisiológico como quase todo partido político brasileiro, chegou a lançar Afif Domingos como candidato à presidência em 89. Quem não se lembra dos "Dois patinhos na lagoa, vote Afif 22" ou do "Juntos chegaremos lá", acompanhados de toda uma coreografia manual? E das previsões da vidente que dava como favas contadas a eleição do empresário?
Passados 13 anos, a história do partido se dividiu em dois períodos. O início, com Álvaro Valle como timoneiro, tentando manter a coerência do discurso liberal, livre iniciativa, etc. O segundo, com a adesão maciça da chamada "Bancada de Deus": pastores e líderes evangélicos com mandato eletivo. Nesse momento, o partido cresceu assustadoramente e deu os primeiros sinais de poderio. Mas pelo caráter sectário de seus votos, continua à margem da discussão política, permanecendo no gueto do enfoque religioso.
Eis que surge a chance de se aliar com alguém que possui 40% dos votos, quase que de maneira cativa. A hora de crescer, de expandir. O empresário José de Alencar é o nome certo: a união do capital e trabalho contra a especulação, patrões e empregados no mesmo ideal. Para o PT, é mais uma tentativa desconexa de superar os preconceitos que o cercam. Um dos setores mais tementes ao possível governo petista é justamente o povo crente, o aliado nessa empreita. Difícil mesmo é acreditar que ideais tão divergentes possam lutar juntos por algo. Na interminável luta de classes, há com freqüência quase inabalável, ganho dos patrões. Será que dessa vez será diferente? Duvido. Só resta mesmo aceitar que são ideais opostos, mas justapostos.
Nas outras alianças, é mais fácil identificar o elo que as une. No caso PMBD-PSDB é uma questão genética. São parceiros de longa data e até a semelhança da sigla é reveladora. Afinal de contas, em termos ideológicos, qual é a diferença entre os dois? Em termos programáticos? No discurso? Na prática? Outra similaridade é a troca constante de posições, volúvel, indo ao léu das oportunidades. Vemos apenas rivalidades pessoais, que podem ser amenizadas ou até esquecidas rumo ao palácio do Planalto. Rivalidades que opõe, mas justapõe.
Outro caso hereditário é o da simpatia do PFL por Ciro Gomes, prefeito biônico de Sobral, pela Arena. Nada melhor para o partido, depois da débâcle da filha do Sarney, reconhecidamente composto pelo que há de pior no cenário político, que a figura de um super-herói, que há anos vem sorvendo o que há de melhor nas Universidades norte-americanas para acobertar a velha política clientelista e coronelista de ACM e seus asseclas. Roberto Freire há muito já fez a mesma coisa que FHC, só não pediu para rasgarem o que escreveu, apenas para esquecerem o que defendia. Resta saber como o velho Brizola reagirá a tudo isso. Ele que se adiantou e iniciou a tentativa de construção de uma terceira via de centro esquerda, com ele próprio, Ciro Gomes e Itamar, se vê como refém do monstro que criou. Infelizmente, o caudilho não está em oposição, mas em justaposição a isso tudo. Resquícios de senilidade, presumo.
E tudo isso começou na tentativa de esmagar seu desafeto Garotinho, que agora surge como forte concorrente ao segundo lugar. E o que se percebe de afinidade entre o PSB e o PPB? Nada, supostamente. Mas entre Garotinho e Maluf há um traço que permite a simbiose entre os dois: o caráter messiânico de seus discursos e posicionamentos.
Salvadores da pátria, homens Providenciais que aparecem como verdadeiros mensageiros da verdade e da justiça. É o velho populismo em suas facetas mais modernas, maquiado pela propaganda pesada, e pela carência de um povo desesperado por alguém que possa os libertar, e despreparado para atingir sua libertação pelas próprias forças.
Maluf e Garotinho podem parecer opostos, mas justapostos na propositura de sua ações.
Como se vê, muito barulho por nada. As alianças são claras, têm a pedra de toque da lógica. Na hora de conquistar o poder, qualquer coisa pode ser lógica. Nada mais duplipensado que estes conchavos: polêmicos, divergentes, suscitadores de dúvidas e de convicções, mas que pouco acrescentam a uma real tentativa de mudança. Opostos, mas justapostos.
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