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Agora é Fora Lula?
Leonardo Silvino - Publicado em 03.01.2003
Lula lá. Depois de quinze dias as perspectivas para um governo Lula são tão precisas quanto um comentário aos dois minutos de jogo. Muito embora as alianças e um sólido conhecimento das raízes do Brasil apontem para um variedade finita de possibilidades.
Sérgio Buarque de Hollanda, em sua obra-prima, afirmou que a frouxidão da estrutura social e a falta de hierarquia, ou respeito por elas, sempre esteve presente na historia ibérica. O autor inclusive se questiona se a organização total não seria uma incapacidade de se criar deliberadamente. Neste modelo nada mais é representativo do que um presidente que quebra protocolos e arrisca sua própria pele para ter um contato com o povo que o elegeu. Presidente de apelo popular é um fenômeno latino-americano iniciado no fim da década passada e que se acentuará nos anos zero. A política da região esteve unificada desde o início da colonização européia. A independência, os golpes, e as aberturas políticas dos países foram quase simultâneos. Agora o fenômeno é outro. Agora é Chávez, Toledo e Duhalde, que assim como Lula tem a 'cara' de seu povo. Enfim um Silva autêntico e sem sobrenome nobre, tcheco ou alemão. Um Silva, o sobrenome mais comum no Brasil, aparentemente chegou ao poder. Lula cumprirá o papel de Rainha da Inglaterra. O incumbido de ser a voz do povo e para o povo enquanto Meirelles e Palocci comandam o barco e, principalmente, o cofre do barco.
No imaginário popular o presidente é aquele que manda e desmanda. Para os menos favorecidos o presidente é aquele que decide o destino de todo um povo. Na prática o presidente da República representa a imagem do país e sendo este uma nação endividada e dependente o presidente tem pouco o que executar. Luís Inácio Lula da Silva mudou-se para Brasília devido a um marketing político bem-arquitetado. Desde o convencimento da cúpula do petista que para chegar ao poder é preciso adaptar-se a ele. Se as teorias inclinarão o país à esquerda ou o Partido dos Trabalhadores à direita só o tempo dirá.
Do discurso ao slogan a campanha de Lula transformou Nizan Guanaes em mero aprendiz do marketing político. Nem o jingle-chiclete da campanha de Serra teve efeito, mesmo com uma letra fascista que deixaria Goebbels admirado ("A onda é verde-amarela. Vem Brasil Lutar por ela... Ela não é vermelha...). Enquanto isso o "Agora é Lula" foi repetido e colado em Fuscas e Audis. Depois de perder três eleições, duas por nocaute no primeiro turno, o slogan reforçou o que o eleitorado estava disposto. Se os outros não mudaram a situação porque não dar uma chance ao Lulinha paz e amor.
A população chorou junto com o novo presidente quando este recebeu emocionado seu primeiro diploma, o de presidente da república. Fácil de perceber que a maioria também recebera seu primeiro diploma. Cansada de ver presidentes pomposos e com a mínima possibilidade de chegar ao ensino superior os desdentados e descontentes se uniram e sonham ainda com a eliminação da miséria e pobreza. Ainda. Paralelamente, as viúvas da ditadura apontam o dedo para o perigo do comunismo. O mesmo sistema que come criancinhas estaria agora num plano maléfico para destruir a paz (qual paz?) do mundo civilizado. Ordem e progresso. A mídia é acusada pela miopia de apoiar este governo com o objetivo de transformar o país num integrante do Eixo do Mal (e Bush é do bem?). Basta lembrar que a revista Veja, baluarte da defesa da família, tradição e propriedade foi a primeira a atirar a pedra contra o novo governo. As gafes apontadas são muito menos importantes do que os escândalos encobertados do governo FH. Além disso, Trotski, Lênin e Marx viraram caricaturas de cães do inferno numa capa da Veja pouco antes das eleições do ano passado.
O fenômeno Lula é puramente capitalista. As bancas de jornais tentam vender o máximo que podem e estão em seu papel. Como Lula tem a identificação popular que não era vista desde a morte de Senna, os jornais, revistas e semanários tratam-no, por enquanto, como um ídolo com o simples propósito de vender mais. O fenômeno de personalidades chegou ao presidente. Até especial em DVD sobre o presidente-operário é comercializado.
Politicamente a aliança que elegeu Lula nada tem de comunista. Esta aliança foi composta por setores bancários e comerciais para reestruturar as exportações, indústria e comércio. Vale consultar primariamente as biografias do vice-presidente da república e do presidente do Banco Central e os principais financiadores da campanha de Lula.
Lula é a imagem do povo no poder. Apenas a imagem e não a mensagem. O mercado teve de engolir o sapo barbudo numa espécie de aperitivo para o Fome Zero. A Dupla Serra-Camata era a imagem da elite presunçosa em oposição ao imbatível produto Lula-Alencar. O primeiro ex-operário nordestino mutilado em acidente de trabalho o outro empresário evangélico. Fácil de entender a diferença de 20 milhões de votos com a ajuda da desastrosa campanha promocional de Serra, a qual já saiu errada logo na escolha das personagens.
Por enquanto tudo é festa. Do tênis de Fidel na posse as cantorias de Gil no ministério. Até a imprudência do presidente em se descuidar da segurança tem sido relevada. Por enquanto.
Por mais contínuo e demorado que seja um êxtase ele termina. Os privilégios dos setores tradicionais, os juros ainda altos, os novos casos de violência e corrupção tornarão a imagem do presidente diferente da atual. Bush apostou que a guerra contra o mundo o tornaria o presidente mais popular da história. Sua popularidade está caindo na tentativa de uma insana guerra contra o Iraque, Coréia e qualquer outro que justifique o estoque lotado de bombas da indústria bélica.
A perspectiva para 2003 é sombria. A Nova Roma arrasará em poucos meses o Iraque e a Coréia. Basta querer. Quem será o próximo alvo? Quem é inimigo? Quem é você? A Continuidade dos presidentes populares tenderá a diminuir se árabes e asiáticos não resistirem. Enquanto isso o quarto poder estará pronto para dizer "sim, senhor". A aprovação de Otto Reich para o cargo de secretário de Estado Assistente para o Hemisfério Ocidental reforça a tese. Notório anticastrista, Reich será uma espécie de governador-geral das províncias do sul.
Desde o Plano Cruzado que a população acredita miticamente num governo. O duplipensamento presente desde a campanha será fundamental para a continuidade de Lula no comando dos próximos oito anos ou oito meses. O mundo separado entre Eixos do Mal e do Bem não existe - alguém já explicou ao Bush o que é um eixo e porque esta expressão surgiu? Infelizmente o cenário aponta para uma palestinização do mundo que poderá inclusive ser a marca de uma nova Idade. A Idade Palestina, iniciada em setembro 2001, será marcada pelo mundo corporativo contra o mundo excluído. Davos x Porto Alegre. Ninguém está a salvo. Seja numa linha expressa do Rio de Janeiro ou uma comédia num teatro russo. Em São Bernardo ou em Bagdá somos potenciais vítimas e terroristas acidentais.
O PT apoiou o Fora Collor e Fora FHC. Dois presidentes que foram eleitos democraticamente. Nada mais justo politicamente que sua transformação de pedra em vidraça seja efetuada. O movimento Fora Lula será iniciado por direitistas oportunistas. Serão aqueles que identificarem o momento que a população começará a desconfiar que as mudanças substanciais em suas vidas não ocorreram e os privilégios aos militares, igrejas e grandes fortunas continuarão. O governo Lula tem uma missão indigesta, acabar com a fome. De FH ninguém esperava por isso, muito menos o próprio. Se Lula matar só a sua fome em reuniões e jantares em palácios o mais provável é que a Venezuela seja o nosso destino. A mão que pede uma foto é a mesma que pede eleições antecipadas.
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