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Uma breve história da Alemanha Oriental
Publicado em 27.01.2004
Para entender melhor o sucesso do filme "Adeus, Lênin" em toda a Alemanha e no mundo é necessário entender um pouco mais da história da Alemanha Oriental.
A Alemanha Oriental só existiu devido a Guerra Fria. Antes mesmo de acabar a Segunda Guerra Mundial os aliados já traçavam planos de repartição de zonas que seriam ocupadas quando Berlim caísse. A Guerra Fria já havia começado com bombardeios dos soviéticos e aliados nas áreas alemães que seriam controladas pelos adversários, que até então eram os aliados na luta contra o nazismo.
A Alemanha foi dividida em quatro zonas de ocupação (francesa, britânica, estadunidense e russa). Na verdade, esta divisão de quatro zonas de ocupação era apenas diplomacia. Os EUA lideraram a parte ocidental e os russos a parte oriental.
Como a parte oriental da Alemanha situada depois da linha Oder-Neisse foi incorporada à Polônia, a Alemanha Oriental estava situada na chamada "Mitteldeutschland" (Alemanha Central). Na nova geografia da Europa houve um "empurrão" para o oeste. A URSS ficou com a parte menos rica da Alemanha, mas em compensação ganhou boa parcela da Polônia e a Prússia Oriental, acabando de vez com o corredor polonês, faixa de terra que separava a Alemanha da Prússia. O resultado deste novo mundo foi a perda de 22% do território Polonês para os russos, superior aos 18% do território alemão cedidos aos poloneses.
O sonho nazista de uma grande Alemanha com mais de 200 milhões de habitantes em 1980 foi reduzido a perda de territórios e ocupações maciças. A Alemanha saiu da guerra menor do que entrou e divida em quatro zonas e, depois, em dois países.
Durante quatro anos do pós-guerra as preocupações maiores eram caçar e punir os líderes e recuperar o máximo possível do potencial alemão quase destruído pela guerra. Temia-se um surgimento de um novo Hitler ou um novo NSDAP. Os erros do passado foram aprendidos pelas potências.
Entretanto, as desavenças entre russos e estadunidenses ficaram insustentáveis. Em 1949, as zonas de ocupação francesa, britânica e estadunidense transformam-se na República Federal da Alemanha (Bundesrepublik Deutschland - BRD ou RFA) e a zona soviética virou a República Democrática Alemã (Deutsche Demokratische Republik - DDR ou RDA). Estes dois novos países foram comumente chamados de Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental, o primeiro de economia capitalista e o segundo comunista.
Enquanto o lado ocidental florescia, principalmente com a ajuda econômica do Plano Marshall de recuperação dos países (e mercado) europeu, o lado oriental mudava radicalmente de planos, com uma economia estratificada e orientada pelos russos.
No começo dos anos 60, a Alemanha Ocidental já era, sozinha, uma das maiores potências mundiais. Os cidadãos do leste, ressentidos com as oportunidades e pressionados pela opressão russa começam a escapar em massa para o Ocidente. O primeiro levante contra os soviéticos aconteceu em 1953 na RDA com uma revolta de trabalhadores em Berlim Oriental, suprimida pelo exército soviético.
Os países que saudaram os russos da libertação dos alemães logo perceberam que eles não sairiam de seus países. As revoltas aconteceram em quase todos os países da Europa Oriental e o ódio ao invasor era constante. Os russos aproveitavam a propaganda e o apelo ao nacionalismo, fato que para os alemães orientais era distante. A RDA não era um país mas um pedaço de país retalhado pelos vencedores.
A divisão do país é o marco "assumido" da Guerra Fria entre os EUA e a URSS. Apesar de Berlim ficar na zona soviética, a capital também fora dividida em quatro zonas, ou seja, a metade ocidental da cidade era uma "ilha" dentro da Alemanha Oriental. Em 1948, no começo da Guerra Fria, os soviéticos bloquearam a cidade. Os cidadãos ocidentais deixaram de ser reféns dos soviéticos graças a uma enorme ponte aérea de medicamentos e alimentos liderada pelos EUA. Em 1961, o governo oriental começa a construir o muro da vergonha para deter os "imigrantes".
Mesmo com a Guerra Fria, os dois países começam a se reaproximar no final da década de 1960. Em 1973, a R.D.A. e R.F.A. ingressam na ONU e, no ano seguinte, se reconhecem mutuamente.
Entre diversas promessas de acordos mútuos e reaproximação, a instalação de mísseis nucleares na Alemanha Ocidental em 1983 cria uma nova crise e o medo de uma nova guerra mundial. Não custa lembrar que estavam no poder nos EUA, o republicano Ronald Reagan e na Alemanha Ocidental o democrata-cristão Helmut Kohl.
Com a subida de Mikhail Gorbatchov ao poder russso, a Guerra Fria começava a chegar ao fim, e conseqüentemente, a influência do império soviético no Leste Europeu também.
Em agosto de 1989, a Hungria abriu suas fronteiras para a Áustria. Milhares de alemães orientais aproveitaram esta oportunidade para chegar até a Alemanha Ocidental apressando o fim do regime. A renúncia do linha-dura Erich Honecker deflagrou o processo de unificação. Em novembro de 1989 caía o Muro de Berlim. Em março de 1990, os unionistas vencem as primeiras eleições livres da RDA. Em junho do mesmo ano, a Alemanha Ocidental, desejosa também da reunificação, acelera a unificação monetária. Quatro meses depois, as duas Alemanhas se uniam politicamente.
Unificação não é o termo mais correto e sim anexação. A bandeira e o exército orientais foram suprimidos. Apenas parte do parlamento é aproveitada. Para ilustrar bem a diferença, apenas dois times de futebol do lado oriental são agregados aos outros 18 da primeira divisão da Bundesliga (1ª Divisão do futebol alemão) de 1991.
E por falar em futebol, o filme "Adeus, Lênin" ilustra este momento histórico. Oficialmente a Alemanha Ocidental foi a campeã da Copa do Mundo de 1990, mas nos dois lados se comemorou como se fosse o título de uma só Alemanha.
E por falar em Copas do Mundo, não custa lembrar que uma das maiores coincidências de todas as copas foi em 1974. Justamente na Copa da Alemanha Ocidental, as duas seleções alemães foram sorteadas no mesmo grupo com Chile e Austrália. Já classificadas, as duas seleções fariam um dos mais esperados jogos de todas as Copas. Os orientais surpreenderam o mundo e venceram os campeões de 1954, ficando em primeiro lugar do grupo. Nas semifinais a RDA não resistiu à força da Laranja Mecânica, a Holanda que encantou o mundo com seu futebol revolucionário não resistiu e perdeu a final justamente para a Alemanha Ocidental, que pela segunda vez era campeã mundial derrotando o time favorito.
Nas Olimpíadas as duas Alemanhas tinham uma presença considerável. A partir da década de setenta, ocidentais e orientais brilharam nas olimpíadas, que eram aproveitadas como propaganda dos regimes capitalista e comunista durante a Guerra Fria. Entre as Olimpíadas de 1948 e 1992, a URSS/CEI ganhou sete olimpíadas contra cinco dos EUA. Este equilíbrio demonstra uma rivalidade que era tão importante quanto a corrida espacial. E as Alemanhas eram uma disputa a parte.
Em 1972, nos Jogos Olímpicos de Munique, a Alemanha Oriental ficou em terceiro e a RFA em quarto, atrás apenas da URSS e EUA. Nas olimpíadas seguintes em Montreal, a RDA ficou em segundo, atrás dos soviéticos e os alemães ocidentais em quarto. Se fossem somadas todas as medalhas, as duas Alemanhas venceriam esta olimpíada. Em Moscou, com o boicote liderado pelos EUA contra a invasão soviética do Afeganistão (uma ironia do destino), os orientais conseguiram mais de 100 medalhas. Em represália nas olimpíadas seguintes em Los Angeles, boa parte do bloco soviético não participou. Em Seul mais uma vez os orientais ficaram atrás apenas dos soviéticos, superando inclusive os EUA. A Alemanha unificada estreou sua participação em Barcelona, atrás apenas da CEI e EUA; em segundo em 1996 atrás apenas dos EUA e em 5º em 2000, seu pior resultado.
Asim como nos Jogos Olímpicos, a corrida espacial era fundamental para os regimes mostrarem ao mundo sua superioridade. Em 26 de agosto 1978, Sigmund Jaehn era o primeiro alemão a ir ao espaço. A propaganda enfatizava que ele não era apenas o primeiro alemão, mas também que a Alemanha Oriental tinha chegado à frente deste mini-corrida, apesar da nave ser soviética. O mesmo Jaehn foi lembrado no filme "Adeus, Lênin", um antigo herói alemão que depois da reunificação virou taxista e ajuda Alex a enganar sua mãe. Na farsa, ele era o novo presidente da república.
A unificação trouxe novas possibilidades para os orientais, principalmente a reincorporação de um grande país, entretanto trouxe também a pobreza, desemprego e o neonazismo. Muito alemães tiveram que se adaptar às leis da competição ou se acostumar a elas. Para a Alemanha Ocidental, o preço da reunificação também foi alto, já que teve de adaptar o obsoleto parque industrial oriental.
Ainda hoje existem diferenças e um pouco de rivalidade entre ocidentais e orientais, o que antigamente era mais comum entre sulistas e nortistas. Entretanto, não há como negar a força de recuperação dos alemães. Atualmente, a Alemanha já é a terceira maior potência mundial e a líder da Comunidade Européia.
Enquanto isso, existem saudosistas da DDR, mas isto é uma outra história...
Especial Adeus, Lênin (1870-1924)
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