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A Revolução dos Cravos e a independência das colônias africanas
O continente africano foi vítima da cobiça de mão-de-obra barata e suprimentos naturais. Dividir para conquistar, esta era a ordem para manter a ordem. Franceses, alemães, ingleses, belgas, espanhóis, portugueses e italianos criaram o mapa africano a partir da divisão de povos e agrupamento de inimigos num mesmo território.




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As independências das colônias francesas impulsionou o movimento de libertação dos países africanos. O "25 de Abril" trouxe a possibilidade das independência de Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.

As colônias portuguesas estavam entre as mais antigas da África e foram as últimas a declarar independência da matriz. Um pouco de história faz bem àqueles que acham que com políticas de esmolas, como cotas para negros em universidades, os objetivos de melhoria serão um dia alcançados.

Independência de Angola
O amigo ou amiga brasileiro que lê este artigo pode achar as suas raízes em Angola. No Brasil, quando se é perguntada a ascendência jamais é dita a nação africana de origem (Diz-se que o sujeito é descendente de portugueses, italianos, espanhóis, alemães, poloneses, libaneses, japoneses e etc., mas nunca qual a ascendência africana. Durante muito tempo, Angola serviu de estoque para a tráfico de escravos de Portugal. Cerca de três milhões de angolanos foram negociados, a maioria para o Brasil.

Crê-se que Angola era habitada há pelo menos 2,5 mil anos. Em 1484, no reinado de D. João II, os portugueses chegaram ao Zaire e estabeleceram uma aliança com o reino do Congo. Angola era divida entre os reinos de Ndongo e Matamba, os quais foram fundidos. Os portugueses aproveitaram as rivalidades entre os reinos para dominar o país, explorando seus recursos naturais e de mão-de-obra escrava. Rapidamente, Angola se tornou a principal fonte de escravos para as colônias portuguesas. Após a instauração do regime republicano em Portugal a colonização ganhou um novo impulso, com a exploração de diamantes, sisal, café, cana de açúcar, milho e minérios de ferro, fundando-se companhias de extração e produção. Isto levou a migração de pelo menos 110 mil portugueses à África. Mesmo assim, apenas 6% da população em 1975, época da independência, era de colonos portugueses.

Nos anos 1950, Angola tinha o desejo unificado de se libertar de Portugal. Entretanto, o movimento anticolonialista era dividido entre grupos rivais como o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e a Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola). No auge da Guerra Fria, cada grupo recebia apoio de um megabloco. A MPLA era financiada pelos países comunistas e a Unita recebia ajuda da OTAN e da África do Sul. Após a Revolução dos Cravos, os grupos iniciaram a guera civil em busca do poder na recente República Angolana.

A guerra civil se intensificou com a invasão das tropas da África do Sul em outubro de 1975 com a justificativa de neutralizar o envio de armas aos guerrilheiros da vizinha Namíbia. As tropas Sul-africanas e da UNITA foram detidas na capital Luanda pelos soldados cubanos.

No mês seguinte foi declarada a independência. O MPLA passou a controlar o novo governo da República Popular de Angola. O primeiro presidente, Agostinho Neto, teve de governar o país com o desastre da guerra civil e saída dos portugueses, praticamente a única mão-de-obra qualificada do país.

Em maio de 1991, a MPLA e a Unita entraram em acordo para a convocação de eleições diretas em setembro do ano seguinte. A Unita não aceitou a derrota e reiniciou o conflito devastando ainda mais o país. Os EUA só reconheceram o governo angola em 1993 durante o governo Clinton, 18 anos após a independência do país. Basta lembrar que os estadunidenses eram mais rápidos que Ayrton Senna em reconhecer as ditaduras aliadas. O governo angolano foi reconhecido pelos EUA muito tempo depois dos talibãs no Afeganistão e do fascista Saddam no Iraque.

Sobre Angola
Independência: 11.11.1975
Capital: Luanda
Línguas: português (oficial) e banto.
População: 10.366.031 (2004)
Moeda: Kwanza
Ranking do IDH: 164º
PIB: 23.894 - 76º entre 180 países.

Independência de Cabo Verde
Quando os portugueses chegaram a Cabo Verde, eles deram este nome ao arquipélogo pela exuberante vegetação. Inicialmente o arquipélogo servia de rota para as naus de transporte de tráfico negreiro. A invasão, seguida da exploração desordenada, modificou as condições de vida da população. No século XX houve um movimento enorme de imigração.

A criação do Partido Africano de Independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC) foi a pedra inicial para a construção da independência. Em 1961 começou a guerra pela libertação nacional. Diferentemente de Guiné-Bissau, a qual o país se aproximou no movimento de autonomia. Após a Revolução dos Cravos, um governo provisório foi nomeado. Em julho de 1975, Cabo Verde declarou sua independência de Potugal. Uma das primeiras medidas da República de Cabo Verde foi a aproximação com Guiné-Bissau.

A guerra pela independência arrasou o país. A catástrofe só foi menor devido à ajuda internacional. O governo nacionalizou e estatizou da mesma forma que as ex-colônias africanas quando obtiveram suas independência. Cabo Verde ainda ajudou Angola ao liberar os aviões cubanos a usar o seu território para abastecimento.

Com o golpe de estado em Guiné-Bissau em 1981, as negociações para a criação de uma federação conjunta começaram a se distanciar. Os nacionalistas de Cabo Verde não fizeram por menos e trocaram o nome do PAIGC para PAICV (Partido Africano de Independência de Cabo Verde). As relações com Guiné-Bissau melhoraram no ano seguinte.

Cabo Verde também vive o drama da pobreza e miséria de todo o continente africano. As reformas vieram com o tempo, integrando o país ao mercado livre. Desde a sua independência, os índices do país vem melhorando consideravelmente, embora a saída do Terceiro Mundo esteja muito distante.

Sobre Cabo Verde
Independência: 05.07.1975
Capital: Praia
Línguas: português (oficial) e crioulos.
População: 405.163 (2004)
Moeda: Escudo caboverdiano
Ranking do IDH: 103º
PIB: 1.180 - 154º entre 180 países.

Independência de Guiné-Bissau
Guiné-Bissau foi parte do reino de Mali, existente até o século XVII. Os portugueses chegaram ao território no século XV, sujeita a administração em Cabo Verde. Apenas no século XIX o interior foi explorado.

Desde a sua chegada em 1500, os portugueses encontraram resistência. A colonização foi catastrófica. Os invasores impuseram o monopólio do comércio e agricultura.

 


O cenário nos anos 1950 eram assustadores. A cada mil nascimentos, 600 mortes. Existia apenas 11 médicos em todo o país e menos de uma dúzia de pessoas havia completado o ensino secundário.

Em 1956, Amilcar Cabral fundou a Partido Africano de Independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC). Após infrutíferas negociações, o partido começa a guerrilha sete anos depois. Em 1972, quase todo o país estava nas mãos dos nacionalistas. Neste mesmo ano foram realizadas eleições à revelia do agonizante império. Em fevereiro de 1973 Cabral era assassinado próximo ao nascimento da República de Guiné-Bissau.

Amilcar Cabral foi substituído por Luis Cabral. Com a Revolução dos Cravos em 1974 e a descolonização das colônias africanas, Guiné-Bissau tornou-se independente, apesar da declaração de independência ter sido em 24 de Setembro de 1973. Assim como nas outras colônias, a independência de Guiné-Bissau foi seguida de nacionalizações, estatizações e reformas. Luis Cabral tornou-se o presidente da nova república até o golpe de estado de 1980, liderado por João Bernardino Oliveira, líder da guerrilha que dissolveu o Conselho de Estado e a Assembléia Nacional. Seu governo foi o ápice da corupção e nepotismo.

A pretendida união com Cabo Verde foi inviabilizada a partir de 1980, após o afastamento do presidente Luís Cabral. O ditador Oliveira tentou também a unificação política, sem sucesso. Em 1984, o vice-presidente do Conselho de Estado, Cel. Paulo Correia, tentou um novo golpe para derrubar Oliveira. Os motivos do golpe foram aparentemente étnicos, os dois pertenciam a raças rivais desde a invasão portuguesa. Correia foi preso e executado dois anos depois.

O país passou por planos frustrados, ajudas do FMI e reformas, assim como todo o Terceiro Mundo. Perante o fracasso econômico e pressionado pela França e Portugal, Oliveira se viu obrigado a proceder a uma lenta e gradual abertura. A ditadura durou até 1994, quando Nino Vieira venceu as primeiras eleições livres. A democracia durou pouco, em 1998 um golpe militar provocou uma sangrenta guerra civil. No ano seguinte uma junta militar depôs o presidente. Em 2000 um governo interino assumiu o poder até as novas eleições serem realizadas meses depois. Apesar da democracia o país custa a se recuperar dos golpes e da guerra civil. Guiné-Bissau é um dos países mais pobres e com indícies mais deficientes do globo.

Sobre Guiné-Bissau
Independência: 24.11.1973 (declarada) e 10.09.1974 (reconhecida)
Capital: Bissau
Línguas: Português (oficial), Crioulo, Fula e Mandinka.
População: 1.315.822 (2004)
Moeda: Franco CFA
Ranking do IDH: 166º
PIB: 3.647 - 137º entre 180 países.

Independência de Moçambique
Desde que os portugueses conquistaram seu litoral em 1505, Moçambique foi usurpado durante 250 anos. Esta foi a primeira colônia portuguesa na África. O movimento pela libertação moçambicana surgiu na década de 1950. Em 1962 foi criada a marxista Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), liderada por Eduardo Mondlane.

Apenas dois anos depois de sua criação, a Frelimo controlava todo o norte de Moçambique. A guerra pela independência se tornou intensa. Mondlane foi assassinado no exílio em 1969. Com a substituição de Salazar por Caetano no governo português, a vitória tornou-se iminente. Com a Revolução dos Cravos, o Governo Provisório cumpriu a promessa de libertar as colônias.

Samora Machel, substituto de Mondlane, passou a governar Moçambique com mão-de-ferro. O páis tornou-se independente e comunista. O país viveu momentos de tensão econômica e guerra civil. A Renamo (Resistência Nacional Moçambicana) era o grupo dedicado a combater o governo. Recebia, como sempre, o apoio dos países ocidentais e da vizinha racista África do Sul.

A abertura econômica só aconteceu com a morte de Samora Machel num desastre aéreo. Seu sucessor, Joaquim Chissano, iniciou reformas em busca do dinheiro do ocidente. Depois da queda do Muro de Berlim, a Frelimo abandonou o marxismo. Mesmo assim, a guerra civil continua. Moçambique é um país atrasado (170º no Ranking Mundial do Índice de Desenvolvimento Humano), pobre, atingido pela guerra, governos e doenças.

Sobre Moçambique
Independência: 25.06.1975
Capital: Maputo
Línguas: português (oficial) e banto (maioria da população).
População: 19.576.783 (2004)
Moeda: Metical
Ranking do IDH: 170º
PIB: 6.676 - 116º entre 180 países.

Independência de São Tomé e Principe
Uma das primeiras colônias do Império Português, o arquipélogo de São Tomé e Príncipe tem uma trágica história, resultado do tráfico de escravos. Sua localização estratégica, a apenas 300km da costa africana ocidental, transformou São Tomé num posto de parada para as navegações européias.

A repressão no governo salazarista também foi intensa. Em 1853, mais de mil homens foram mortos em conflitos com o governo. O Massacre de Batepá uniu as forças nacionalistas e em pouco tempo foi fundado o MLSTP (Movimento pela Libertação de São Tomé e Príncipe) com o objetivo de tornar o país independente e mais justo: 90% das terras pertenciam às companhias estrangeiras e o MLSTP tinha o apoio dos trabalhadores rurais.

O governo português tentava convencer que São Tomé e Príncipe não era um país, mas uma província ultra-marina. Foi cogitada a mesma autonomia concedida a Madeira e Açores. Mesmo assim, em 1975 o país foi declarado independente de Portugal. As reformas aconteceram imediatamente com a nacionalização de bancos e fazendas; as propriedades rurais foram socializadas e o governo iniciou reformas, inclusive adotando o método Paulo Freire na educação.

A oposição de direita, liderada por Carlos da Craça, encontrava ajuda internacional. Exilado no vizinho Gabão, Craça tentou fazer uma graça ao tentar invadir o país sem sucesso em 1978. Sete anos depois, o governo começou a abrir a economia e a política interna em busca de apoio ocidental.

A história das ex-colônias africanas são importantes para entender o desejo de mudanças em Portugal. Elas foram decisivas para o fim do período salazarista. Estes países, muito pobres e atrasados, passaram por mudanças, guerras e governos centralizadores. Mesmo assim tentaram. Pior são os governos e povo covardes que não mudam, que deixam a esperança da mudança, seja ela qual for, ser vencida pelo medo, seja este qual for.

Sobre São Tomé e Principe
Independência: 12.06.1975
Capital: São Tomé
Línguas: português (oficial) e dialeto crioulo (maioria da população).
População: 165.034 (2004)
Moeda: Dobra
Ranking do IDH: 123º
PIB: 69 - 180º entre 180 países.

Artigo de Eleutério Brandão.




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