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Um anel, um mundo Artigo sobre o filme O Senhor dos Anéis
Oswaldo Portella - Publicado em 2002
Enquanto o sonho de uma Europa unificada se concretiza, a mais ambiciosa obra literária do século XX ganha sua versão cinematográfica. Dois fatos que isolados não significariam nada, mas que reunidos desenham um cenário bastante interessante.
Criadas com o propósito de estabelecer uma mitologia própria para a Inglaterra, as histórias da Terra Média se valem originalmente de lendas finlandesas, celtas, etc. Entretanto, mesclar todas estas histórias não era suficiente para J.R.R. Tolkien. Católico praticante, o escritor realizou um verdadeiro sincretismo religioso e cultural capaz de transmitir valores cristãos valendo-se do folclore pagão europeu. O filme foi extremamente feliz neste ponto. A figura mística da elfa Galadriel é um amálgama perfeito da Virgem Maria cristã com a Sacerdotisa druida.
A crescente legião de fanáticos na obra alimentam seu culto com devoção e consumismo pré-fabricado, artificial e pretensamente tão globalizante como o esperanto e o Big Mac, o anel aos poucos a todos governará.
Esta adaptação milionária para o clássico de Tolkien vai ainda mais longe. Neste nosso atual cenário geopolítico vários outros pontos curiosos são levantados. Desenvolvida durante o período entre as Grandes Guerras, a trilogia evoca temas bem interessantes.
O mundo continua dividido por expansionistas, manipulação da opinião pública, ódio racial, intolerância religiosa e etc. Embora tenha negado durante toda a vida semelhanças entre sua história e a Segunda Guerra, Tolkien sempre reconheceu sua influência em sua obra. Sauron e Saruman parecem metáforas para Hitler e Goebbels, sua horda de orcs desfila estandartes quase nazistas. Elfos e anões com sua rivalidade ancestral se assemelham a ingleses e franceses - uns dotados de sabedoria e fleuma, outros orgulhosos e cheios de pompa. A sociedade do anel é basicamente uma representação dos aliados.
E hoje? Além das imagens evocativas acima podemos observar que homens e hobbits podem ser interpretados como nós, habitantes do continente americano. Alguns de sangue élfico, nobres de coração e destinados à grandeza. Outros meros selvagens, ignorantes e isolados da política da Terra Média. Haverá entre nós um herói?
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