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Artigo sobre a relação de pais e adolescentes Como criar adoslecentes? Artigo sobre a relação de pais e adolescentes Como criar adoslecentes? Artigo sobre a relação de pais e adolescentes Como criar adoslecentes? Artigo sobre a relação de pais e adolescentes Como criar adoslecentes? Artigo sobre a relação de pais e adolescentes Como criar adoslecentes? Artigo sobre a relação de pais e adolescentes Como criar adoslecentes? Artigo sobre a relação de pais e adolescentes Como criar adoslecentes? Artigo sobre a relação de pais e adolescentes Como criar adoslecentes?  


Valesca da Costa Abranches - Publicado em 20.07.2003




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Os pais estão cada vez mais preocupados a respeito do futuro de seus filhos, hoje em dia a família não mais se sente auto-suficiente para administrar a educação de seus filhos, é comum que busquem ajuda em programas de TV, no ciclo social, e principalmente, encarem a escola como uma parceria na formação dos filhos em todos os aspectos educacionais. As expectativas que os pais têm da escola são inúmeras, mas pode-se resumir dizendo que os pais esperam que a escola reforce aquilo que eles ensinam em casa, e ainda preencha as lacunas que eles, pais, não se sentem capazes (e talvez realmente não sejam) de preencher. Hoje é motivo de preocupação para os pais questões que antes eles podiam resolver simplesmente ocultando dos filhos, ou impondo-lhes uma dita “verdade” ou simplesmente proibindo-os, tais como questões de religião, etnia, ideologia, classe e etc. hoje passaram a ser tema de debate que não pode ser mantido fora do diálogo entre pais e filhos bem como da sala de aula. Temas que obrigam os pais a “saber” tratar, e que faz com os pais se preocupem em como a escola vai tratar.

A relação entre os pais e filhos mudou, pois mudou a família, tomando novas formas através de divórcios e segundos casamentos, madrastas e padrastos, meio-irmãos, irmãos dos irmãos e primos que não tem relação consangüínea, “pais de fins-de-semana”, mães que trabalham fora de casa, e por isso não podem manter a mesma dedicação à Educação dos filhos como a anos atrás, e diversas outras “novidades” que atualmente são corriqueiras na vida das crianças. Aumentou o nível de preocupações dos pais e também o número de coisas que eles tem de considerar, os jovens hoje estão expostos a uma diversidade de informações e de “perigos” que antes não existiam.

Os valores e as tradições educacionais estão em contínuo processo de transformação, porque a sociedade é dinâmica e a “verdade” efêmera. Não se pode mais acreditar numa solução unívoca que atenda a todas as demandas educacionais que se tem hoje em dia, os pais e as escolas agora têm de se adaptar ao movimento da sociedade, buscando encontrar caminhos para preparar as crianças para o futuro, para isto tem-se que enfrentar a polêmica e encarar as possibilidades de caminhos que podem variar de formas conservadoras, até reacionárias, a formas revolucionárias.

Não importa o quão tradicional seja a educação que se pretende dar aos filhos, não se tem como ignorar os processos de formação da personalidade individual, bem como os mecanismos afetivos, destacar apenas o comportamento observável de uma criança ou adolescente acarretará num sério problema de comunicação entre pais e filhos que pode levar a drásticas surpresas.

O comportamento não é controlado apenas por suas conseqüências, então o uso de recompensas e de punições para induzir o comportamento desejado, pode levar ao estabelecimento de uma relação de troca onde deveria haver uma relação de afeto e confiança. Os pais de todo mundo lançam mão desta idéia, e passam a reforçar o estímulo para a Educação criando várias formas de punição e também de recompensa, se utilizam desta técnica para obter um “bom” comportamento dos filhos, ou seja, um comportamento condicionado, obediente, mas fácil de lidar.

Isto ocorre até hoje dentro de famílias modernas e dos estabelecimentos de ensino, mesmo se sabendo que esta é uma visão sectária, não levando em conta todo o processo interno ao sujeito (não observável) mas de grande valor na formação da personalidade. Uma rígida disciplina parece ser o caminho para o sujeito de comportamento “bem educado”, então a disciplina é a obrigação dos educadores (pais ou professores), pois é o que permite a aprendizagem. Contudo, mesmo não questionando a importância de por limites ao comportamento, afinal, a vivência em comunidade impõe esta condição, o controle autoritário do comportamento ignora a individualidade dos sujeitos, ignora a possibilidade de diferentes respostas a um mesmo estímulo. Entretanto, como é uma técnica de emprego fácil e que muitas vezes pode dar rápidos resultados, ou pelo menos resultados aparentes, se torna uma grande tentação para o educador, só que estabelece uma relação autoritária, não recíproca e que, se não receber outras formas de comprometimento, pode se tornar hostil, principalmente na adolescência.

É por este motivo que este tipo de Educação vem sendo cada vez mais criticada, e tem perdido espaço para novos experimentos que se preocupam com a formação do caráter, com o saber ser apreendido, assimilado e refletido, com desenvolvimento da individualidade ou mesmo da humanidade. O respeito aos pais é construído sinceramente, sem que seja forjado pelo medo.

Por isso, no final dos anos 70, os pais da classe média passaram a questionar o tipo de educação que receberam, vale lembrar que eles haviam passado por processos de liberação sexual, luta contra a ditadura, crítica a censura, intenso contato com teorias psicológicas, novas teorias pedagógicas e outras coisas, que faziam eles questionarem a validade de se manter uma relação tão apartada com seus filhos, impondo-lhes a aceitação de tudo de forma arbitrária, através da força. Os pais de classe média mais “liberais” foram os primeiros a procurar por uma valorização do lado humano, afetivo, criativo, consciente e experimentador da infância e da adolescência, mas, anos mais tarde, tiveram de deparar com uma realidade não muito animadora, que é a deficiência de se controlar e de impor limites que permitam aos filhos uma boa convivência social e uma boa colocação dentro da sociedade, nenhum pai quer que seu filho se sinta excluído.

Gravidez precoce, abandono dos estudos, uso de drogas, prostituição, violência, brigas, pequenos crimes entre outras coisas são preocupações constantes dos pais, suas maiores dúvidas são saber como conduzir os filhos por um caminho onde estas coisas estão presentes, tendo de protegê-los e ao mesmo tempo de prepará-los para o enfrentamento, como explicar sem manipular, como afastar sem coibir a liberdade, ou seja, como impor limites, informar, esclarecer, cuidar, aceitar os riscos e amar, tudo na medida certa, medida esta que é totalmente desconhecida dos pais e dos filhos. Os objetivos dos pais estão ligados a preparar o filho para a “vida”, dando-lhe confiança, criatividade e iniciativa, há uma grande preocupação com a formação do caráter e de um comportamento ético, mas não esquece da necessidade de adequação às exigências do mercado de trabalho e da comunidade, condições de sobrevivência, que ainda apresentam cobranças muito “tradicionais”.

A adolescência é, em especial, um período de muita instabilidade para as pessoas, pois nela ocorrem diversas transformações hormonais que mexem não só com o corpo, mas também com a mente. Após os 11 anos, o pensamento já atinge um certo nível de abstração, então a percepção passa a ser também subjetiva, o que permite ao adolescente fazer uma reflexão crítica das coisas, nesta hora, os pais, que se esforçaram em dar condições aos filhos de questionamento da realidade, vão perceber antes dos outros os primeiros resultados desse esforço, muitas vezes em forma de um questionamento a respeito deles pais, o que não deve ser encarado como algo negativo, e sim a nascimento de um novo projeto de vida.

Entre os 11 e 12 anos, a puberdade está em latência, é comum aparecerem distúrbios motores, afetivos, biológicos advindos deste novo contexto sócio-afetivo. Até os 11 anos, a noção de grupo, de comunidade, de ligações afetivas era baseada em coisas bem concretas (família, turma da escola, turma da rua, etc.), após os 11 anos, a criança já possui novos parâmetros (que só vão se ampliar) de relacionamentos, e a identificação de grupo ao qual ela pertence se transforma.

Para optar entre estes novos parâmetros (que envolvem a postura profissional, sexual, ética, empreendedora e tudo mais), os jovens levam em consideração tudo que existe ao seu redor que eles começam a perceber, separam os que mais parecem lhes satisfazer e daí pesam os prós e os contras de cada um, levando em conta não só a vontade própria, como também a opinião dos pais, que tem um valor fundamental afetivo. Mas nem sempre a decisão final agrada aos pais (na maioria das vezes, isto é causado simplesmente devido à “defasagem” ocasionada pelas mudanças socioculturais entre a adolescência dos pais e a dos filhos, sem que signifique realmente um motivo concreto para a preocupação dos pais), daí ser comum o sentimento dos pais de querer impedir o crescimento dos filhos no intuito de protegê-los, só que eles também querem ver desenvoltas as aptidões individuais dos filhos e suas personalidades próprias. Cria-se um paradigma paterno que espelha um outro paradigma, o dos filhos adolescentes, que experimentam agudamente o medo, a ansiedade e o sentimento de que perderam a infância para algo que desconhecem, e ao mesmo tempo, vontade crescerem e de se afirmarem como indivíduos.

Entretanto, muitas vezes, observa-se um comportamento esquivo em adolescentes, tal como, querer dormir demais, ser muito tímido, não ter ânimo para sair de casa ou fazer as coisas, comer absurdamente, ficar o tempo todo jogando no computador, uso de drogas, ficar com a atenção presa a TV, etc., mas este comportamento é uma fuga do paradigma que o aflige. Da mesma forma, que muitos pais enchem seus filhos com “gordas” mesadas, cedem-lhe às vontades, ou os matriculam em uma enorme quantidade de tarefas extracurriculares, para fugir do mesmo paradigma. Estes são, sem dúvida, comportamentos que fogem da tentativa de comunicação entre pais e filhos, mas a comunicação com os pais é de grande valor para os filhos, bem como suas opiniões lhes servem na formação do caráter. Nada disso, vai fazer com que os filhos sigam estritamente o que os pais lhe recomendam, contudo com certeza vai influenciar suas ações e diminuir a angústia de ambos.

Pais e adolescentes sofrem com as mudanças que ocorrem nesta fase do desenvolvimento humano (que vai dos 11 ou 12 anos até os 17 ou 18 anos), a tarefa de saber como se educar já não é fácil, aliás, é uma proposição suficientemente difícil em qualquer idade, nesta as dificuldades são ainda maiores, mas exatamente por ser um período de grandes mudança é que ele se torna um período muito fértil e criativo, que pode desembocar em um relacionamento muito bom entre pais e filhos, mas para isso, ambos tem de enfrentar o problema juntos, encarando as dificuldades e respeitando uns aos outros, se comunicando sinceramente, sem medo e sem julgamentos, apenas, honestas tentativas de ajudar.


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