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Inveja de Schwarzenegger
Paulo Alexandre Filho - Publicado em 20.07.2003
Nisso concordo com o canastrão metido a político. Tanques, bombardeios, caças supersônicos, porta-aviões, submarinos atômicos, lançadores de foguetes, mísseis, bombas de fragmentação, armas inteligentes e militares estúpidos não constituem todo o arsenal bélico norte-americano. Eles também contam com a capacidade destrutiva da tapeação retórica e do palavrório patriótico que é falso vendedor de um modelo de civilização fundada na liberdade.
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O imaginário ianque é constituído por esta idéia de que há entre eles realmente um espírito praticamente cruzadístico de enfrentamento do caos caracterizado por tudo aquilo que possa soar como algo antiamericano, daí sua predisposição a valorização de gestos que julgam heróicos diante do mal. As manifestações desse espírito na cultura norte-americana, particularmente na arte cinematográfica, são típicas ao vermos os bravos desbravadores do faroeste darem seus tiros no barbarismo selvagem dos índios ou dos bandidos mexicanos nos velhos filmes de Bang-Bang que já exibiam, mesmo sem cores, a pujante vocação violenta de imposição do mais forte sobre o mais fraco. É claro que esta prática de impor-se violentamente não é nova e muito menos é invenção dos conterrâneos de G. W. Bush, mas eles tornaram-se no cinema uns peritos na cristalização desse tipo de desenvolvimento maniqueísta de visão de mundo. Normalmente estão os bons e velhos gringos salvando a civilização e a liberdade através de seus grandes heróis, uns personagens que conseguem assimilar algum carisma apesar de serem assassinos especializados. Os super-heróis dos quadrinhos encarnaram muito bem esta função quando a tecnologia das produções cinematográficas era ainda limitada quanto a possibilidade de dar movimento e pirotecnia a todas as realizações dos combatentes do mal.
O brutamontes Arnold Schwarzenegger encenou este tipo de personagem diversas vezes. Combateu muitos inimigos em suas lutas e missões regidas pelos roteiristas de Hollywood, tornando-se o maior aniquilador, o mais eficiente serial killer da história do cinema (alguém até já realizou a proeza de contabilizar as suas vítimas fatais nos filmes em que atuou). O homem é tão talhado para encarnar esta tarefa de herói que fracassou quando tentou fugir da rotina e atuar em comédias simples e sem violência. Tudo isso, além da simpatia aparente, de seu sorriso fácil e de sua pretensão política, credenciou o ator a se tornar uma espécie de garoto-propaganda perfeito para a tentativa (ainda frustrada) de tirar o ar demoníaco da opressora presença norte-americana no Iraque. O republicano Schwarzenegger esteve no Iraque, a Babilônia em Chamas, para lançar o seu novo filme – O Exterminado do Futuro 3 – e proferir algumas palavras para uma audiência de assassinos profissionais, gente que mata de verdade, composta por soldados em missão na arenosa terra de Nabucodonosor e de Saddam Hussein.
Schwarzenegger não esteve em visita ao Iraque simplesmente para lançar o filme. Esteve lá para fazer política, mas seu desempenho nesta sua nova seara continuou marcado pela canastrice. Antes de fazer a divulgação do filme, o ator falou todas as bobagens que podia, fez campanha pelo governo da Califórnia e proferiu umas frases que mesmo sendo pronunciadas em alguns de seus filmes teriam sido pérolas de um roteiro fajuto. O astro da pancadaria e da pirotecnia imitadora de guerra nos cinemas afirmou categoricamente que o seu país adotivo (ele é austríaco) desperta inveja nos outros países e esta inveja pode ser manifestada através de terrorismo, mas os EUA precisam estar vigilantes e agir com a devida truculência para garantir sua situação. Invadir países faz parte da estratégia anti-inveja, não importando nem mesmo que o próprio dirigente-mór da CIA afirme com a maior cara-de-pau que as informações que garantiam que o Iraque possuía as “armas de destruição em massa” teriam justificado o taque eram informações absolutamente mentirosas – tudo isso enquanto Bush passeava pela África fazendo promessas humanitárias, participando de safáris e enrubescendo perante uma cópula de elefantes.
Uma pesquisa recente realizada em diversos países, dentre os quais o Brasil, apontou para uma óbvia conclusão: o mundo detesta os EUA, sua política externa e seu governo. Se Schwarzenegger estiver certo, então somos todos uns invejosos frustrados por não gozar da grandiosidade do american way of life. No desespero da frustração falamos asneiras terríveis a respeito dos EUA, ficamos pensando em formas de afetar nosso poderoso causador de inveja e então está criado o problema: tornamos-nos comunistas, terroristas e ameaças iminentes e potencias. Tudo causado pela inveja, este pecado capital perigosíssimo. O que os ianques fazem não é outra coisa senão defenderem-se das explosões de inveja concentrada ao atacarem os seus adversários impiedosamente. A inveja, tratada como argumento para uma invasão covarde como a que está sendo operada no Iraque, seria responsável pelas vítimas que se amontoam assassinadas por este pecado capital que cometeram? Arnold Schwarzenegger acabou invertendo (e não foi o primeiro) a situação entre vítimas e agressores. Os EUA viraram vítimas da inveja e o Iraque é o agressor invejoso. Simplificação maior é impossível.
A despedida do falastrão (no pior sentido da palavra) Schwarzenegger foi gloriosa: disse aos soldados que eles é quem eram os verdadeiros exterminadores. Nisso concordo com o canastrão metido a político, pois as forças norte-americanas não estão encenando nada no Iraque e aquilo que estão fazendo lá não partiu de nenhum roteirista de filme de ação – é massacre mesmo.
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