Tony Blair agiu corretamente? - A coalização anglo-americana e a Guerra do Iraque < Duplipensar.net
 

 



Valesca da Costa Abranches - Publicado em 08.12.2003

A polícia britânica confirmou no dia 19 de julho que o corpo encontrado no dia anterior em Londres é de David Kelly. Aparentemente, o cientista teria se suicidado aos 59 anos, por não suportar mais as pressões sobre sua participação em uma reportagem da BBC. O especialista em armas foi tido como a principal fonte da reportagem sobre o dossiê contra o Iraque que deflagrou a maior crise política interna enfrentada pelo governo de Tony Blair.
  Tony Blair - Premier Britânico
 


 

O dossiê, sobre as supostas armas de destruição em massa iraquianas apresentado ao Parlamento britânico em setembro de 2002, foi usado pelo premier britânico, para acusar o regime de Saddam Hussein de ser capaz de mobilizar armas deste tipo em 45 minutos.

A reportagem da BBC, divulgada dia 29 de maio, citando uma autoridade dos serviços secretos britânicos, afirmou que a citação de 45 minutos foi acrescentada no último momento por Downing Street, apesar das advertências dos serviços secretos, que julgavam a informação pouco plausível. Alastair Campbell, chefe de comunicação do governo Blair, ao ser entrevistado pela BBC, afirmou que as informações eram mentirosas e exigiu desculpas da emissora. Ele questionou os princípios do canal, que citou apenas uma fonte anônima para acusar o governo. No começo de julho, o próprio Blair acusou a BBC de ter questionado sua "integridade" ao afirmar que ele e sua equipe manipularam um relatório sobre armamentos iraquianos para justificar a guerra contra o Iraque.

Diversas especulações foram feitas a respeito de quem seria a fonte anônima da reportagem, e o nome do especialista, David Kelly, frequentou os jornais do país. Kelly foi pressionado pela comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Comuns e negou ter sido a principal fonte do repórter Andrew Gilligan. Admitiu somente ter conversado com o jornalista da BBC sobre o conteúdo do dossiê. Contudo, após a sua morte, o diretor de jornalismo da BBC, Richard Sambrook, afirmou que Kelly foi a principal fonte para a reportagem.

A morte de Kelly só fez aumentar a crise por todo Reino Unido e a populalidade de Blair sofreu um enorme abalo. Tony Blair é primeiro-ministro desde 1997, quando o Partido Trabalhista venceu o Conservador após dezoito anos sem chegar ao poder. Já em seu primeio discurso oficial, Blair já demonstrava o que seria a principal característica de seu governo: dualidade. Em meio a elogios ao seu antecessor, John Major, ele explicou ao público o conceito de "New Labour".

"(…)It is a mandate for New Labour and I say to the people of this country, we ran for office as New Labour, we will govern as New Labour(…)" Entretanto, o que é este "new labour" não fica claro neste discurso e também em nenhum outro feito por Blair. Ele não é claro ideologicamente, apesar de não rejeitar os partidos políticos, se manteve independente de seu partido diversas vezes, inclusive gerando mundanças internas nas forças dentro do Partido trabalhista.

Blair se coloca para seus eleitores,desde sua primeira eleição, entre Thatcherismo e os antigos trabalhistas. Aparentemente, isso vinha agradando a população britânica e boa parte dos líderes mundiais. Devemos lembrar que Blair alcançou picos de popularidade surpreendentes, além de ser visto pelos analistas políticos internacionais como um hábil negociador e um líder talentoso.

Podemos dizer que num balanço geral de sua carreira, ele conquistou o status de um verdadeiro líder mundial, apesar de nunca ter despertado grandes paixões nem mesmo dentro de seu país. Este é o paradoxo que mais intriga quem acompanha sua carreira, apesar de fazer uso de seu carisma e boa aparência, desperta sentimentos ambivalentes.

Em política internacional, ele também nunca se definiu, manteve uma postura de equilíbrio nas relações com a União Européia e também com os Estados Unidos, apesar dos eventos relativos a guerra no Iraque, ele nunca manteve uma postura clara de parceria com nenhum dos dois lados ao longo do seu governo. Sua posição é de uma ponte entre a direita e a esquerda, entre Europa e EUA, entre empresários e trabalhadores, entre a guerra e paz.

Verificamos que sua postura diante de questões de guerra sempre foi dúbia, apesar de enloquente defensor da paz em termos ideais. Já se posicionou a favor da guerra em diversas ocasiões. Durante um debate sobre o Kosovo, ele fez um discurso em Chicago entitulado "Doctrine of International Community". Neste discurso, ele argumenta que as vezes é necessário o uso de força contra o "mal" para poder criar os meios do desenvolvimento de uma comunidade.

Pragmatismo foi a força usada para convencer e arrebanhar tantos os mais conservadores, como os mais visionários membros do comunitarismo internacional. A marca é a realização, não basta sonhar com um mundo melhor se não pudermos atentar para a realidade e perceber que sua execução depende de prescindir de certos princípios e de sonhos menos pertinentes.

Portanto, Blair nunca foi um defensor ardoroso do desarmamento, da nacionalização das indústrias ou da participação da União Européia, como outros trabalhistas. Ele aos poucos criou seu próprio estilo de política, que quase sempre envolve equilíbrio entre opostos: rigor fiscal com política social, política anti-violência com bem-estar, ação do governo com liberdade de mercado, etc. Modernizar conservando tem sido o seu projeto. Entretanto, ele arriscou sua imagem no propósito de auxiliar os EUA na guerra do Iraque. A popularidade de Blair em seu país caiu depois da guerra no Iraque, a população questiona onde estavam as armas de destruição em massa que justificaram a participação britânica na guerra. Enquanto continua a polêmica, sobre a forma como Downing Street supostamente manipulou a informação dos serviços de inteligência para convencer a opinião pública e seu governo da necessidade de um conflito, a morte de Kelly só faz agravar a crise.

Tony Blair afirma que seu governo agiu corretamente no caso de David Kelly, desmentiu ter autorizado que Kelly fosse identificado como a fonte principal da BBC. Kelly só ganhou a atenção da mídia depois de informar seus chefes, no Ministério da Defesa, de que ele poderia ter sido a fonte da reportagem. O ministério divulgou o nome do cientista para jornalistas, dando início as pressões que culminaram em sua morte. O porta-voz oficial de Blair afirmou que o gabinete do primeiro-ministro havia sido consultado, mas que foi o Ministério da Defesa que cuidou do assunto o tempo todo. A maioria dos jornais britânicos interpretaram o comentário como uma tentativa de responsabilizar o gabinete do secretário de Defesa, Geoff Hoon, pelo assunto e tentar salvar assim a imagem do primeiro-ministro.

Apesar de todos os esforços, ninguém acredita que Blair conseguirá recuperar totalmente a sua imagem, mesmo já se podendo notar os primeiros sinais de crescimento econômico (especificamente relativos à guerra). Resta agora especular se o retorno esperado por Blair, quando aceitou os riscos de apoiar o presidente americano George W. Bush na Guerra do Iraque, compensará a sua recente perda de popularidade.

Os interesses britânicos na indústria do petróleo são notórios, incluindo um leque de empresas de diversas áreas, além da chamada "reconstrução do Iraque" e do aproveitamento de um novo mercado, localizado numa região central de uma área com grande potencial de aproveitamento econômico. Também tem-se o estreitamento das relações com os EUA, o que significa novas parcerias econômicas e um importante respaldo político no cenário mundial.

Contudo, a questão que precisa ser feita para que se possa avaliar a decisão de Blair é se a Grã-Bretanha precisava desta decisão. Blair sempre se guiou pelo pragmatismo, e já admitiu aceitar prescindir de princípios éticos, que o afastariam da participação na guerra, então tal atitude só pode ter sido norteada por algo que deve ter sido considerado uma "necessidade prática britânica".

Os motivos são fáceis de localizar, Blair vinha recebendo cada vez mais críticas ao seu governo, a crise que paira sobre a economia mundial era agravada pela forte dependência das empresas britânicas de negócios com os EUA. A crise na economia americana é uma séria ameaça à economia britânica. E ainda problemas internos como a estagnação econômica, o desemprego, o aumento da violência, o alcoolismo e a dificuldade de acertar as contas do governo, fora a perda de influência dentro da União Européia e a insolubilidade da questão irlandesa.

Para avaliar a decisão de Blair, ainda é preciso considerar mais um ponto: o Reino Unido quase não enviou homens para as frentes de batalha e quase não teve gastos neste processo, o verdadeiro peso de seu apoio é verificado apenas nos enfáticos discursos de Tony Blair.

Alguns jornais britânicos tem citado Blair como lunático, dizendo ser inexplicável sua atitude. Entretanto, podemos concluir, que postos de lado todos os valores éticos que envolvem uma guerra, a atitude de Blair é absolutamente coerente com sua carreira política, e ainda muito mais coerente com o que ele sempre se propôs fazer como primeiro-ministro. Se ele agiu corretamente é um juízo de valor que cada um deve fazer, mas lunático não é o termo certo para o definir, talvez seja um termo mais adequado a eleitores que parecem não dar a devida atenção à postura daqueles que ajudam a eleger, e depois os chamam de lunáticos.

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