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Paulo Alexandre Filho - Publicado em 01.09.2003 - Revisado em 01.12.2005




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No Recife há certa louvação ao aristocrático Gilberto Freyre, que escreveu Casa-Grande & Senzala e achava até que havia certa harmonia entre os senhores e os que não eram nada. Nem vou discutir aqui sobre as percepções sobre a sociedade brasileira ou sobre as relações raciais na obra de Freyre, pois não é este meu propósito, mas acho que ele, mesmo considerando todas as críticas sobre sua obra (e eu mesmo tenho muitas), foi um notável escriba e é justificável sua influência. Só me detive a tratar de Freyre porque em função de sua influência aqui no Recife, “Casa-Grande” e “Senzala” são nomes que acabam batizando um monte de coisas na cidade, desde restaurantes a motéis. No tradicional e elitista bairro de Apipucos, local onde viveu o escritor, há vários estabelecimentos ou logradouros que receberam nomes que fazem alguma referência a Freyre e sua obra. Na mesma rua onde ele morou há o Motel Senzala, que, pelo que ouvi falar, é um dos bons estabelecimentos de sua categoria na cidade, embora quem o batizou não leve em consideração que nas senzalas os escravos passavam horrores (a menos que o tal motel seja especializado em atender a praticantes de sado-masoquismo).

Alguns dos edifícios sofisticados onde residem os bem vividos da cidade não deixam de prestar suas homenagens ao autor, pois há aqui e ali algum chamado Casa-Grande, Casa-Grande “Disso” ou Casa-Grande “Daquilo”, enfim, estes edifícios incorporaram bem a nova dimensão de casa-grande como espaço destinado à elite. Curioso para mim foi encontrar mais uma pérola em matéria nomes para edifícios residências: achei no bairro de Boa Viagem, freguesia típica de casas-grandes, um edifício luxuosíssimo chamado Senzala dos Suassunas.

Claro que acabei parando para dar uma olhadinha nesta senzala cercada por grades e vigiado ostensivamente por seguranças de alguma empresa privada que presta serviços de vigilância privada e patrimonial. Tudo ali parecia ser ciosa típica de casa-grande e nada lembrava senzala, apesar do nome do edifício. Casa-grande e senzala eram dois ambientes grotescamente antagônicos e dois símbolos no Nordeste canavieiro de um regime social regido pela cana-de-açúcar plantada nas posses de senhores de terras e de gente, sobretudo gente escravizada. Senzala era o local onde viviam os escravos e era o ambiente que fazia o contraponto com a casa-grande, local onde viviam os senhores – proprietários dos moradores das senzalas. A casa-grande e a senzala (posteriormente o sobrado e o mocambo) simbolizavam exatamente as diferenças tão drásticas entre pólos que fazem de nós uma das sociedades mais assinaladas por diferenças.

Vi que na Senzala dos Suassunas não vivem somente senhores, pois percebi que lá existem muitos serviçais que habitam umas pequenas senzalas - uns cubículos, na verdade - que recebem uma denominação que procura desmontar um pouco do tom pesado e desqualificativo de cativeiros de serviçais: chamam estes espaços de dependências de empregadas. Nestas senzalinhas vivem ou alojam-se (eis um termo mais apropriado) as empregadas domésticas em meio a um ambiente totalmente impessoal, com mobílias que não lhes pertencem e outras bugigangas que são guardadas nestes espaços para não se empilharem nas áreas “sociais”, isto é, dos senhores (empregados não ocupam espaços “sociais”, não usam elevadores “sociais”, nem acessam as entradas “sociais” dos edifícios). Os objetos depositados nas dependências das empregadas não prejudicam a decoração e não entopem com sua inutilidade as gavetas e armários dos senhores, fica exatamente no cubículo próximo a área de serviço – no quartinho da empregada. As empregadas da Senzala dos Suassunas usam uniformes para que se deixe bem claro que quem anda uniformizada não é a senhora ou a sinhazinha - é a empregada. As empregadas costumam entrar e sair da Senzala dos Suassunas pelo acesso de serviço (local por onde costuma também ser deslocado p lixo dos apartamentos dos senhores) e elas ainda passam o dia inteiro dedicando-se ao conforto alheio e não ao seu próprio conforto, oferecem aos senhores aquilo que não podem ter para si mesmas e servem mesas com iguarias que faltam nas refeições de suas famílias.

A Senzala dos Suassunas tem um importante valor como síntese bizarra de uma sociedade que não se vê tão distante da sociedade das casas-grandes e senzalas escravistas sobre as quais escreveu Gilberto Freyre. A Senzala dos Suassunas é didática e é patética, um micro-cosmo quase perfeito de uma sociedade que vê natural e cruelmente que há um fosso abissal entre castas de bem-aventurados e miseráveis, um fosso que é contemplado por uns, aprofundado por outros e vivido por muitos. As favelas não são nada se não uma expressão disso: são senzalas potencializadas, que cercam as casas-grandes e são suas vizinhas, mas ainda continuam a distâncias sociais incalculáveis.

Casas-grandes e senzalas ainda existem nas formas do novo binômio da injustiça: condomínio e favela.