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Adriel Diniz - Publicado em 11.12.2003

Se alguém duvida se uma música alcançará ou não o sucesso, o que lhe resta, além da ingenuidade, é a surpresa ao perceber que o tema da novela toca no rádio da sua casa, que você canta, que é sucesso. A arte virou coisa, e a coisa mercadoria. Marx já alertava para o processo de reificação no sistema capitalista, onde tudo e todas seriam apenas coisas, objetos – mercadorias para o usufruto de quem pudesse pagar. E, infelizmente, o mesmo aconteceu com a arte. As músicas, antes expressão dos sentimentos e da
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alma humana, começaram a ter valor comercial, a agregar cifras e probabilidades de venda em suas resenhas. A massificação da cultura tem exatamente este objetivo, o de tornar comum a todos, o que é uma demonstração cultural de um povo, de uma época, em determinado lugar.

O ensaísta Sérgio Paulo Rouanet, em seu ensaio, o novo irracionalismo brasileiro, alertou: “O que mina a literatura de cordel não é literatura clássica e sim a novela das oito”. Para ele esta “coisificação” da arte é o passo primeiro para a massificação dos frutos de trabalho do artista. De um lado a cultura regional, arraigada à tradição e aos costumes de povo, de outro, a cultura clássica, que mesmo com ares de etnocentrismo, se apresenta como algo superior. No meio a cultura massifica, impedindo tanto a manifestação regional, autentica, quanto o acesso a arte dos intelectuais.

No Brasil, especialmente, o fenômeno social chamado novela mostra sua força de forma assustadora. A música da novela é a música do sucesso. O som que embala os pares românticos das tramas globais é o mesmo som emoldura um romance no Amazonas ou na Bahia. Ainda no atelier, a obra já tem comprador, tempo em que vai permanecer “nas paradas” e o público que vai se encantar pelos versos e pala melodia. Não é exagero. Para dimensionar a influência da novela no gosto dos brasileiros, basta lembrar que dois expoentes da MPB, Caetano Veloso e Gilberto Gil, só ultrapassaram a marca dos 100 mil discos vencidos, quando suas canções faziam parte do staff da novela global. Coincidência?

Se há quem ache pouco, a declaração de Ludwig Wittgenstein de que – como mostrar que os limites de minha linguagem são os limites do meu mundo, responda-me agora: que horas são no sol ? – corrobora com a constatação de que o mundo dos brasileiros é algo produzido, em parte, nos estúdios da Globo. Verdade, “né brinquedo, não!” Os jargões dos personagens acabam fazendo parte do vocabulário das pessoas como se fossem tradição familiar, ou algo que estava para ser dito, mas sem a novela, seria impossível pensar antes. É lógico que não precisa falar das roupas dos mocinhos e vilões, dos celulares, carros e tudo o mais que vira moda porque é “igualzinho” ao da novela.

A crítica não é exclusivamente à televisão. Vale lembrar de um botão democrático que ostenta todo aparelho, o que desliga. A janela não culpada pela paisagem. Se é mais fácil e cômodo viver dentro mundo que passa na “telinha”... Mas depois que a novela acaba, resta apenas um cidadão alienado, fútil e sem o que dizer, pois só fala da fala da novela.

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