Poodles e Baleias < Duplipensar.net
 

 



Paulo Alexandre Filho - Publicado em 04.12.2003

Antônio Rogério Magri, um fantasma que chegou a comandar o Ministério do Trabalho durante fantasmagórico governo Collor, não chegava a ser um homem inteligente. Na verdade, era notório que ele realmente não tinha uma mente brilhante, porém, apesar de sua modesta expressão de gênio, ele acabou afirmando que cães também eram gente. Ele foi mal compreendido ao fazer esta insinuação e virou motivo de chacota, todos que puderam riram dele e fizeram questão de ressaltar que o ilustríssimo membro do
  Baleias - Salvem as baleias
 


 

Governo não era lá um intelectual ou homem de grande cultura. Ele era um péssimo ministro, mas a idéia foi genial.

Lembrei do ex-ministro ao presenciar uma cena lamentavelmente curiosa que num cruzamento dos mais movimentados do Recife. Neste cruzamento muitas crianças costumam parar para pedir esmolas e os diversos “trombadinhas” que circulam por lá aproveitam para atacar os mais desatentos e imprevidentes que acabam sendo presas fáceis para os seus assaltos. Por causa dos pedintes e dos assaltantes os motoristas e demais ocupantes dos carros já chegam ao sinal com os vidros fechados. Certo dia, do ônibus onde estava, comecei a prestar atenção em duas meninas que nem chegavam a ter dez anos de idade enquanto elas se dirigiam a um carro japonês ocupado por um casal que não havia se decidido ou simplesmente esqueceu de levantar os vidros. A menor delas pôs uma mão na porta do carro e estendeu a outra para a distinta senhora que estava com um mimoso poodle em seu colo. O cãozinho felpudo e bem cuidado se lançou furiosamente contra a menina, que deu um assustado passo para trás, quase trombando com uma motocicleta que também estava parada no cruzamento. A madame passou a latir para a criança mais que o próprio poodle. As meninas correram do local desesperadamente e a senhora continuou a esbravejar contra a infeliz que não merece tratamento digno de um poodle. Até onde consegui ainda acompanhar (o sinal já havia aberto e o tráfego estava em movimento) a mulher ainda estava irritada – eu também havia perdido as meninas de vista.

Este episódio cotidiano ajudou a alimentar minha antipatia por estas duas qualidades de bichos: poodles e madames. Eu passei a implicar com os poodles porque sempre os associei a uma imagem tão comum de que eles são os bichinhos de estimação de madames, que são bichos que me causam verdadeira repulsa e são piores, logicamente, que os detestáveis cachorros magrelos e felpudos que elas adoram, pois poodles, pelo menos, são animais cientificamente caracterizados como irracionais. Mas a irracionalidade das madames que latem para crianças nos cruzamentos é de natureza social, praga típica de um ambiente no qual a miséria faz parte da paisagem e onde é tão natural sua presença, embora um bom número de nós simplesmente passa a se importunar quando os miseráveis cruzam nossos caminhos e nos incomodam com seus apelos mais comuns: a mendicância dramática ou a violência salteadora.

Dia desses o Jornal da Globo exibiu uma matéria sobre o crescimento do mercado de produtos requintados para cães. Além de alimentação especial, de tratamentos estéticos e de produtos cosméticos, os cachorrinhos de madame podem dispor de uma sofisticada linha de vestiário. Manter os cãezinhos na moda pode custar caro, pois um traje de noite ornamentado com brilhantes que foi mostrado na TV custava mil e oitocentos Reais, mas um consumidor entrevistado pela reportagem em um pet-shop chegou mesmo a declarar que tal custo valia a pena ser pago ... e que ele pagaria ainda muito mais! É espantoso viver num país onde haja quem considere que vale a pena desprender tamanha fortuna em roupinha de cachorro, ignorando que uma multidão de vira-latas humanos precisa disputar restos de comida em lixeiros com os cães de rua.

Entre pulgas e latidos, meu cachorro predileto é Baleia, personagem fundamental do romance Vidas Secas, escrito pelo notável Graciliano Ramos. Baleia é uma cadela sem pedigree que vive entre os retirantes do Sertão e ela vive os mesmo dramas dos flagelados, isto é, ela é miserável e faminta, embora, assim como eles, nutre algum fio de esperança em sua alma - é, se cachorro também é gente, Baleia tem alma! Em Vidas Secas, a cadela é humanizada e os homens são animalizados pela penúria de suas vidas, daí a grande identificação que passamos a ter pela personagem canina. Na miséria retratada por Graciliano, mas uma miséria que existe fora da literatura, o que se vê é o predomínio de um estado de tal modo deteriorado que ser a agir como a Baleia do livro acaba sendo a única possibilidade de existir. Baleia corporifica e simboliza bem as mazelas geradas pela discrepância social e pelo desprezo que nutrimos pelos miseráveis e, considerando o mundo cão no qual estamos e a vida de cão que se leva no Brasil, estamos mais para Baleias do que para poodles enfeitados. Certamente a madame do cruzamento e o homem do pet-shop não conseguiram ainda compreender o mundo no qual vivem ou concebam a idéia de que vivam tão isolados da realidade que passa a ser natural para eles animalizar pessoas e tratar cães com tanta distinção. Para eles, os cães são os melhores amigos dos homens. Prefiro acreditar na solidariedade humana.

  Cão da raça Poodle - Poodles Baleias - Salvem as baleias Cão da raça Poodle - Poodles Baleias - Salvem as baleias Cão da raça Poodle - Poodles

Recomende este artigo
Recomende o artigo "Poodles e Baleias" de Paulo Alexandre Filho.