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Adriel Diniz - Publicado em 12.01.2004

As pessoas precisam de muito mais do que páginas sujas de sangue, e números que contabilizam o caos social vivido no Brasil. Precisam de mais grades.

Grades para cercar os bandidos que ameaçam o bem-estar dos cidadãos, grades para cercar os cidadãos que são alvos dos bandidos, grades que prendem na inércia e afastam a solução de um problema que, parece, não é de ninguém. Fortalezas são
  Presídios e grades
 


 

erguidas em prol da necessidade de não ver que o gueto que aprisiona a sociedade é na realidade um espelho das mazelas que os entusiastas do “deixa disso” insistem em negar.

Minicastelos espalham-se pela cidade, e assim acreditam os minirreis, o problema vai estar resolvido. Câmeras de vigilância, cães adestrados, cercas eletrificadas fazem, com eficácia questionável, o papel do estado de proteger sua população. Todo o aparato tecnológico envolvido na estranha trama de que se trabalha para viver bem, e só se vive bem se for enjaulado, como os bandidos que tanto assustam.

Esses guetos ao revés mostram a contradição de quem aposta num sistema de “recuperação” falido, numa polícia despreparada e corrupta, numa justiça que não serve a ninguém que realmente precise. Trancam –se em seus mundinhos encantados, com toda tecnologia que pode ser paga e certezas falhas de que isso as livra de “mundo louco” para o qual contribuem, com a empáfia de quem acredita que a miséria é uma condição imposta por Deus ou pelo destino. Até que um miserável bate na janela do belo carro importado e leva os “valores” desta gente. Até que uma bala atravessa o caminho de sucesso, até que as grades se abrem para a verdade entrar. Mas se isso não acontecer, eles continuam presos.

Parece mesmo que as grades agradam a seus moradores, que se negam a admitir que são as vítimas do seu próprio descaso. A sociedade se aliena em buscar soluções individuais para um problema coletivo. Quando ‘loucos’ denunciavam a formação de grandes “cinturões” de pobreza em torno dos grandes centros urbanos, eram assim que eram tratados, como loucos. Pois a lógica capitalista precisava dos pobres, agora estes mesmos miseráveis que foram excluídos do modorrento desenvolvimento brasileiro, ameaçam os poderosos com toques de recolher e matanças urbanas, que outrora só assustavam no campo.

O poder mudou de mãos, embora não admita, o Estado brasileiro não é mais detentor da ordem e do progresso que anuncia a sua bela bandeira, o crime, a violência, a anarquia parecem ter seguido o caminho dos que deveriam cuidar dos interesses dos já desinteressados cidadãos, debandaram contra a lei.

No Império, jornalistas eram mortos sob a ordem da coroa. Durante a ditadura militar, Vladimir Herzog foi assassinado nos porões da censura e do despotismo que alimentou o regime. Hoje jornalistas são ameaçados e mortos por traficantes. Por aí dá para ter uma idéia de com quem está o poder.

Mesmo assim, as grades parecem normais. Cabíveis ao estado de sítio imposto pelo medo. O que há de se esperar de uma sociedade que se prende por não ter vontade de lutar contra um mal que também é seu, que também a afeta? Grades individuais, mini-jaulas, micro-cadeias. E às ruas vão vitoriosos os que conseguirem pagar pela falsa sensação de segurança.

  Nervos à flor da pele Presídios e grades Nervos à flor da pele

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