Julgamento da História - Assim como duvidava da prisão de Osama Bin Laden, também não acreditava na captura de Saddam Hussein < Duplipensar.net
 

 



Paulo Alexandre Filho - Publicado em 06.01.2004

Assim como duvidava da prisão de Osama Bin Laden, também não acreditava na captura de Saddam Hussein, sobretudo nas condições que assistimos pelo noticiário. Não formei nem participei de nenhuma torcida organizada ou fã clube do ditador iraquiano e bem que gostaria de ver o tirano sendo punido por todos os seus crimes, mas ao ser detido pelas forças norte-americanas que se apoderaram do Iraque, tenho tendência a concluir que o fim de Hussein não implicará na libertação do país. Não há razões para acreditar que
  Julgamento da História - O julgamento de Saddam Hussein
 


 

o governo dos EUA manterá alguma isenção quanto a condução dos destinos políticos no Iraque, ao contrário, tudo leva a crer – e até já havia sido declarado – que a influência ianque será grande para evitar alguma espécie de encaminhamento contrário aos EUA nos rumos políticos do país que fora dirigido por Hussein – que ascendeu ao poder e impôs uma ditadura com apoio norte-americano. Vale para isto substituir a ditadura sanguinária de Hussein por uma outra ditadura sanguinária pró EUA, pois não importa se há derramamento de sangue para a manutenção do poder, desde que se respeite um alinhamento que não contrarie os interesses do implacável Tio Sam.

Bush afirmou que a morte haveria de ser a pena imposta a Hussein. O todo-poderoso presidente dos EUA, já habituado com a pena de morte, justificou que esta penalidade era o mínimo que se poderia determinar sobre o destino daquele que foi responsável pela morte de uma multidão de iraquianos inocentes. Com fundamento nos mesmos argumentos de Bush, eu teria a ousadia de propor que ele mesmo fosse julgado pelo mesmo crime, ou seja, por ser responsável pela morte de iraquianos inocentes. Alguém responderá pelas mortes patrocinadas pela coalizão liderada pelos EUA na investida contra o Iraque? Claro que deveria! E claro que deveria ser Bush! Do mesmo modo, o seu querido papai, Bush I, poderia ter acento ao banco dos réus no julgamento por crimes contra o povo iraquiano. Bush I não só também dizimou o país militarmente como determinou um bloqueio econômico que impedia até que medicamentos entrassem no Iraque, fato que contribuiu para que milhares de iraquianos inocentes morressem à míngua ano após ano e para que toda uma geração de crianças desnutridas pagassem um alto preço por serem iraquianas e “inimigas dos EUA”. Seria um julgamento histórico, afinal, nenhum presidente ianque foi julgado por crimes contra a humanidade em alguma corte internacional, apesar de alguns deles figurarem no rol de grandes criminosos e genocidas que atormentaram povos e nações inteiras.

Com fim da Segunda Guerra, os chefes nazistas foram a julgamento em Nuremberg e tiveram que responder pelas atrocidades que cometeram. Seus crimes não haveriam de receber a impunidade como resposta, mas as bombas atômicas atiradas sobre Hiroshima e Nagazaki não levaram aqueles responsáveis por elas a julgamento mesmo considerando que as milhares de vítimas destes atentados tenham sido civis indefesos. Os vencedores das guerras impõem as condições que caberão quando elas terminam e isto serve para explicar a impunidade das autoridades ianques, embora não a justifique. Não houve punição quanto ao napalm criminosamente despejado sobre o Vietnã, implicando na morte e na contaminação de muitos outros civis indefesos. Não pagaram por seus pecados os incentivadores e cúmplices das ditaduras espalhadas pelo chamado “Terceiro Mundo” durante a Guerra Fria. Recentemente, o malfeitor chileno Pinochet conseguiu escapar ileso de ameaças de julgamento graças ao apoio de alguns de seus impunes parceiros – como a dura “Dama de Ferro” Margareth Tatcher, ex-premier britânica, e até do amigo de ditadores Henry Kissinger, artífice da política externa norte-americana nos anos em que Pinochet exterminava livremente seus oponentes através das práticas de perseguições e punições mais terríveis.

O fato é que Saddam Hussein será exemplarmente punido. Poderá ser feita a tão esperada Justiça em seu caso, contudo, a Justiça estaria mais satisfeita se o julgamento contra os agressores do povo iraquiano incluísse o Grande Chefe Bush, o seu suplente Dick Cheney, suas sanguinárias aves de rapina Donald Rumsfeld e Colin Powell (“os falcões”) e Condoleeza Jackson (não vejo ave mais apropriada para ela: “a galinha”). Nesta guerra sem mocinhos, os líderes dos dois lados envolvidos são todos réus.

Justiça seja feita.

Leia também:
A relação perniciosa entre Saddam Hussein, os Estados Unidos e a mídia mundial - Rogério Beier
Execução Dupla - Artigo sobre a condenação e enforcamento de Saddam Hussein - Jaime Leitão

Veja também (Vídeo da execução de Saddam Hussein na forca):
Gravação de celular com câmara do enforcamento de Saddam Hussein (antes da execução)
Gravação de celular com câmara do enforcamento de Saddam Hussein (execução - streaming)
Gravação de celular com câmara do enforcamento de Saddam Hussein (execução - Formato wmv - 8,06 MB)
Gravação de celular com câmara do enforcamento de Saddam Hussein (depois da execução)

  Julgamento da História Julgamento da História - O julgamento de Saddam Hussein Julgamento da História Julgamento da História - O julgamento de Saddam Hussein Julgamento da História Julgamento da História - O julgamento de Saddam Hussein

Recomende este artigo
Recomende o artigo "Julgamento da História" de Paulo Alexandre Filho.