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Europa em festa
Adilson Luiz Gonçalves - Publicado em 03.05.2004
Núpcias de reis e príncipes eram – e ainda são - comemoradas por vários dias. A literatura é pródiga em contos e a história é recheada de fatos, que mostram o fausto dos casamentos reais: alguns como consumação do amor verdadeiro, que transpõe barreiras; outros por conveniência política, aproximando, unindo e fortalecendo relações entre países. Exemplos do absolutismo romântico e “de resultados”.
Como deveriam ser as núpcias de países em tempos de democracia? Em qual caso a Europa unida se enquadra?
No de resultados é óbvio, embora o romantismo esteja presente na esperança da efetiva superação de um passado tão obscuro e violento, quanto cultural e cientificamente majestoso.
A Europa comemora as núpcias de vinte e cinco países, com o esplendor dos velhos tempos e regozijo fraterno, mas fazendo votos para que parte deles jamais se repita. Tempos em que não passava de um continente de bárbaros, que colocavam troncos de árvores em torno de suas aldeias, para evitar que o céu caísse sobre elas. Povos que celebravam a morte mais do que a vida. Reis que praticavam sua “justiça” ao fio da espada e “nobres” que detinham o direito “legal” de deflorar todas as virgens plebéias de seus domínios.
O Cristianismo, do qual foi a principal seara, trouxe-lhe alguma luz, ordem e humanidade. Saiu da pré-história para tornar-se o “centro” do mundo. Escreveu a “Carta Magna”. O Renascimento animou as artes, ciências e filosofia. A Revolução Francesa deu voz ao povo, apesar de, logo em seguida, silencia-la pela guilhotina... Mas mesmo tanta luz não impediu seus líderes de continuarem suas guerras e perfídias. Guerras sem fim: de trinta... Cem anos! Guerras entre herdeiros, guerras entre facções políticas, cismas religiosos violentos e ambíguos, mar de sangue na Jerusalém das Cruzadas, colonialismo, pirataria de estado, racismo, intolerância...
A Europa desunida foi mãe de muitas nações, mas madrasta de seus povos. Escravizou, violentou, destruiu ou corrompeu civilizações na América, África, Ásia e Oceania. Absorveu riquezas e, em troca, disseminou doença, crime e horror. Comprou e vendeu territórios e pessoas. Maltratou e, por isso, foi rejeitada por seus “filhos”. Balançou o mundo a cada revolução: industrial ou política. Foi luz, mas distribui sombras. Reinventou a democracia, mas praticou o imperialismo. Invadiu e foi invadida. Fez duas guerras mundiais, responsáveis por milhões de mortes, mutilações e cicatrizes, que ainda não fecharam. Construiu muros, dividiu cidades, separou irmãos... Hoje, unida, luta para voltar a ser forte e independente!
Se as feridas antigas serão curadas, só o tempo dirá. A Europa desunida já ressurgiu das cinzas várias vezes! Imaginem agora, que ela busca uma unidade sem guerras, embasada em interesses comuns! Será que aprendeu e está ensinando uma nova lição ao mundo? Isso, o tempo, também, dirá!
A Europa está em festa! O mundo aguarda um novo equilíbrio: mais justo!
A expectativa também é nossa: ex-colônias; que fomos vítimas, mas também somos herdeiros dessa história. Ficam, então, as perguntas: Quando alcançaremos essa mesma maturidade? Quando deixaremos de ser cópias mal-acabadas, para sermos matrizes de matizes próprios? E, finalmente, quando teremos nossa própria festa?
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