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Paulo Alexandre Filho - Publicado em 25.05.2004


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O programa televisivo estadunidense “24 Hours” (que no Brasil é veiculado através da GNT) apresentou recentemente uma entrevista com a toda-poderosa Condoleezza Rice, que é uma espécie de assessora especial do Governo Bush para assuntos relativos a extermínio e carnificina militar sem razões justificáveis. Ela é a grande estrela da II Guerra do Iraque, uma celebridade bizarra que ficou mundialmente famosa graças à guerra terrorista contra o terrorismo. Na entrevista ela expressou com um arrogante constrangimento seu pesar quanto a situação das famílias que tiveram seus entes queridos mortos durante a guerra. Mas seu dó somente – e obviamente – se referia a seus compatriotas, cujas vidas estão muito melhor avaliadas do que a reles existência de qualquer iraquiano, terrorista ou não, que tenha sido morto por soldados ianques em condições desvantajosas. Para Miss Rice, estes bravos soldados estadunidenses que tombaram nas areias iraquianas são heróis que enfrentaram o terrorismo e buscaram conquistar a paz e a liberdade para o sofrido povo do Iraque e a segurança para o mundo, liberto da irracional praga terrorista. Suas famílias, ainda que dilaceradas pelo sofrimento da perda, deveriam estar honradas porque seus heróis morreram numa missão grandiosa em defesa de princípios enriquecedores.

A falaciosa retórica da Rainha da Guerra culminou com o apelo fácil ao atentado ao WTC e todas as péssimas e dramáticas recordações que esta ação terrorista trazem ao povo dos EUA. Ela afirmou, categoricamente, que o melhor que o Governo dos EUA poderia (e deveria) fazer pelas vítimas do WTC e pelos próprios soldados estadunidenses mortos no Iraque era manter sua posição firme de perseguir o terrorismo e os agressores que ousaram atacar Nova Iorque naquele infeliz 11 de setembro.

Miss Rice não esclareceu nada a respeito das causas imediatas da invasão ao Iraque, pois as “armas de destruição em massa” que estariam em poder dos iraquianos simplesmente não foram encontradas. A resistência de “rebeldes” é feita através de precárias condições e a proporção de baixas entre os lados contendedores é discrepante, sinal de que pedras contra tanques não surtem efeitos eficazes e que os homens, mulheres e crianças engajados nesta guerra, apesar dos discursos e das causas suspeitas, procuram evitar que seu país seja dominado por estrangeiros hostis e violentos. Quem aclamou a romântica e heróica resistência francesa durante a ocupação nazista na II Guerra Mundial sabe que, apesar das condições históricas e políticas serem distintas, o gesto é basicamente o mesmo: não se entregar sem reação.

Evidentemente, nem todo “rebelde” iraquiano é terrorista, pois existem brios patrióticos e nativistas que estimulam um indivíduo a enfrentar a morte também no Oriente Médio. O discurso patriótico não é uma apropriação exclusivamente ianque. Se os filhos de Washington se dispõem a morrer pela pátria, os filhos de Alá também. As posições mediocremente racionalizadas e politicamente dirigidas que são reportadas pela mídia sobre a resistência iraquiana obscurecem o fato de que a resistência é um instrumento legítimo de ação de quem se vê ameaçado, ainda que esta resistência possa ser inglória. Resistir contra a invasão no Iraque, para a opinião pública ou parte dela, passou a ser encarado como um alinhamento simpático ao terrorismo e todos os rebeldes ou insatisfeitos quanto a ocupação passaram a ser encarados pura e simplesmente como terroristas. Estes rebeldes civis e desconhecidos que são capazes de praticar barbaridades desumanas são reflexos do ambiente que foi forjado no Iraque desde a invasão por tropas ilegitimamente investidas do poder arbitrário de infringir a autonomia de um Estado Independente e destruir, por meios bélicos, sua estrutura produtiva e funcional, arrastando um país politicamente instável para uma situação de caos absoluto.

Os discursos dos republicanos associados de Bush na empreitada bélica contra tudo e contra todos estão amargando um crescimento no descrédito perante o eleitorado. A popularidade do presidente, que foi construída por um banho de sangue, está francamente abalada e seu adversário democrata experimenta uma ascensão progressiva. A guerra passou a assumir um aspecto funesto na corrida eleitoral, pois virou ponto de programa político. Enquanto em Washington a guerra da retórica e do ilusionismo discursivo em nome do combate ao terrorismo tem tido resultados no plano das estatísticas eleitorais, no campo de batalha se mata e morre de verdade. Quando a guerra de discursos encerrar, talvez a guerra real tenha uma trégua e vidas passem a ser poupadas. O tiro dado por Bush saiu pela culatra: o terrorismo se fortaleceu, não foram localizados os ficcionais armamentos iraquianos, Bin Laden continua solto e Bush ele está ameaçado de sair da Casa Branca.

O custo do capricho sanguinário de Bush tem sido muito alto, mas quem tem pago por esta insanidade obsessiva não é ele. Líderes maníacos possuem este poder absurdo de arruinar milhares, milhões de vidas, como se estivessem praticando algum gesto magnífico e entram todos para a História, homenageados ou execrados.


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