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Jovens que pensam
Ramon Torres - Publicado em 29.07.2002
Já faz algum tempo que escuto falar que esta geração de jovens (da qual sou parte, pois tenho 21 anos) é uma geração acomodada, sem iniciativa, consumista, e longe de ser uma geração ativa politicamente como os jovens dos anos 60, 70 e 80.
Desculpem mas não considero os jovens dos anos 90 os famosos caras-pintadas ativos, pois ficou mais que provado que eles foram simplesmente usados por um grande canal
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e políticos em uma luta suja, que não devemos comentar agora, mas deixo uma pergunta: onde andavam os caras-pintadas no escândalo dos anões do orçamento, João Alves e na compra de votos na reeleição?
Eu confesso que também pensava assim, aliás, ainda penso. O fato é que há poucos dias participei de um debate no Centro de Educação de São Paulo, e percebi que nem tudo esta perdido. O debate era sobre o hip-hop e meios de comunicação de massa. Eu fui assisti-lo mais por curiosidade do que por expectativas de ver um grande debate, meu gosto musical é bem eclético e me permite gostar de Rap da periferia paulistana.
Quando começou o debate tive uma grata surpresa, pois estava cercado por jovens e adolescentes que visualmente falando não demonstravam muita coisa e nas suas conversas "rolava" um "fala mano", "...tá ligado que é embaçado", "pode crê mano", "firmeza". São termos que fazem o pesadelo de muitos professores de português e intelectuais, mas que é perfeitamente normal para o povo. Aqueles jovens que eu subestimava eram movidos por algo que eu não via há muito tempo: paixão, política, ideais e sinceridade. Digo isso pois estou cansado de ver a juventude simplesmente se destruir ou nas drogas e violência (destruição física) ou na transformação (lenta e dolorosa) em uma simples massa de manobra, que só pensam em "curtir a vida adoidado", consumir o que os meios de comunicação empurram sendo bom ou ruim!
O debate que era basicamente sobre o rap como forma de protesto deveria tentar entrar na grande mídia dominada pela burguesia, seria possível não se vender? Seria possível ser autêntico? Al Pacino disse uma frase no filme "Advogado do Diabo" muito interessante: "Se você dança com o diabo aos poucos você se transforma nele". O debate pegou fogo e foi ficando cada vez mais excitante, isso graças ao poder de articulação daqueles jovens que foi muito bem desenvolvido por letras de rap, polêmicas e contundentes. Esses jovens não têm uma bela realidade para contar, vivem a desgraça do racismo e preconceito que por mais que falamos que aqui no Brasil não existe, é uma desgraça na vida de milhares de brasileiros. O racismo no Brasil é branco como a neve e escuro como o breu!
O racismo é branco pois é só ter um pouco de atenção e você vai perceber que ele esta em todo lugar, todos temos muitas vezes reações racistas ,de uma maneira ou de outra, quem nunca fez uma piada ou desconfiou de um negro dirigindo um carro de luxo? Ou ficou com medo quando um negro entra de touca dentro de um ônibus? Acho que deveríamos parar de falsos moralistas e reconhecer o problema e procurar tratá-lo! Afinal, 300 anos de escravidão oficial e mais 200 de escravidão clandestina não se joga no lixo assim!
O racismo é negro pois aqui no Brasil ele é superdisfarçado e terrivelmente doloroso. Quantos negros ricos você conhece? Quantos galãs de novela das oito são ao menos moreno escuro? Quantos apresentadores de novela são negros? É, esse tema vai longe...
Voltemos aos jovens no debate, esse jovens discutiam ideais de Malcom X, Martin Luther King, dentre outras figuras históricas como se tivessem vivido com eles, tal era seu conhecimento cultural! Muitos doutores talvez não saibam metade disso!
Foi sem duvida um belíssimo debate, foram levantadas questões que deixo para você refletir e quem sabe um dia talvez escreva sobre elas: Quem controla o quê? O homem controla a mídia ou a mídia controla o homem? Quem é mais racista? Branco ou negro? É possível difundir ideais em grande escala pela mídia e não se corromper?
Varias perguntas foram levantadas e muitas sem respostas. Mas eu sai de lá com uma. Ainda existem jovens que pensam!
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